MP monitora candidatos ligados ao crime organizado nas eleições de 26

Em Ribeirão, MPSP cruza dados com TRE e polícias para flagrar candidatos com vínculos ao crime

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Operação MP/GAECO/POLICIA CIVIL contra PCC
Operação MP/GAECO/POLICIA CIVIL contra PCC - Foto: Foto: Divulgação
Operação MP/GAECO/POLICIA CIVIL contra PCC - Foto: Foto: Divulgação

O Ministério Público de São Paulo (MPSP) está acompanhando, nas eleições de 2026, eventuais ligações entre candidatos e grupos do crime organizado. De acordo com o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, a instituição faz cruzamento de informações junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e às forças policiais para detectar pessoas vinculadas a organizações criminosas que tentam conquistar cargos e posições de influência.

Na visão do procurador, o problema não se restringe ao financiamento ilegal de campanhas. O alvo é também a tentativa de o crime indicar ou eleger pessoas diretamente alinhadas aos seus interesses, de modo a ocupar espaços de poder. Segundo ele, historicamente criminosos se valem de candidatos considerados “eticamente frágeis”, que, uma vez financiados, podem se tornar, em certa medida, “faccionados” e leais às organizações.


Infiltração em instituições públicas


O MPSP teme ainda a infiltração de integrantes do crime organizado em instituições públicas. Oliveira e Costa citou o caso de uma mulher apontada como “patroa do crime”, que atuava como instrutora de CACs para criminosos e foi presa no mesmo dia em que iria assinar contrato de estágio no próprio MPSP. Ele também mencionou um funcionário da instituição que teria sido afastado depois de acessar dados de processos ligados a organizações criminosas e repassá-los a advogados. Para o procurador, esses episódios revelam que o crime não busca apenas dinheiro, mas também posições dentro de estruturas que facilitem sua atuação.


Crime organizado na economia formal


A expansão do crime organizado também aparece na economia formal. Segundo o PGJ, o PCC deixou de atuar só em atividades tipicamente criminosas e passou a participar diretamente de negócios de aparência legal. “Eles não estão se infiltrando na economia formal. Eles participam da economia formal”, afirmou. Operações do MPSP teriam identificado a presença de organizações criminosas em setores como combustíveis, fintechs, empresas de ônibus, lojas e outros estabelecimentos comerciais. Na avaliação dele, essa presença é um dos elementos que o levam a enxergar a facção com características de organização mafiosa.


Ribeirão Preto como núcleo sensível


Ribeirão Preto, nesse cenário, é apontada pelas investigações como um dos núcleos sensíveis e de monitoramento contínuo da atuação financeira do crime organizado no setor de combustíveis. A Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 por Ministério Público, Receita Federal e Polícia Federal, revelou que ao menos 40 fundos de investimento e diversas fintechs foram usados para “blindar” e lavar recursos ligados ao esquema, com patrimônio estimado em cerca de R$ 30 bilhões. Em Ribeirão Preto e cidades vizinhas, como Barretos, Jardinópolis e Pontal, foram apurados alvos que incluíam usinas, redes de postos de combustíveis e instituições financeiras, com apreensão de documentos e equipamentos.

No contexto de apuração sobre infiltração do PCC na política local, o ex-vereador e candidato Marcos Papa  PSB foi alvo de mandado de busca e apreensão em sua residência, em Ribeirão Preto, durante a Operação Contaminatio, deflagrada em abril de 2026. Segundo o delegado responsável, ele é investigado como um possível contato, na cidade, de Thiago Rocha, suspeito de integrar a facção. Até a conclusão da primeira fase do inquérito, o Ministério Público não ofereceu denúncia contra o ex-vereador, e a Justiça determinou o desmembramento da investigação sobre seus eventuais vínculos com a organização criminosa.

O caso ilustra a preocupação das autoridades com a possível ocupação de espaços de poder por pessoas com ligações, diretas ou indiretas, ao crime organizado. Enquanto as apurações seguem em curso, o episódio reforça o monitoramento intensivo sobre candidatos e agentes políticos em Ribeirão Preto e região, considerado pelas investigações um ponto estratégico na intersecção entre lavagem de dinheiro, financiamento de campanhas e tentativa de influência no poder público.

Fintech BK em Ribeirão Preto na lavagem e no financiamento de campanhas

De acordo com a Receita Federal, uma das fintechs envolvidas no esquema atuava como espécie de “banco paralelo” da facção, movimentando mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024. As investigações indicam que o dinheiro de distribuidoras e postos de combustíveis ligados ao grupo era recebido por fintechs, aplicado em fundos de investimento e usado na compra de imóveis, veículos e participações societárias, o que dificultava o rastreamento da origem dos recursos.

A BK Instituição de Pagamento foi citada pelo Ministério Público como uma das instituições por meio das quais o lucro das operações era lavado e movimentado por fundos de investimento em direitos creditórios.

Além de lavar dinheiro, essas fintechs também irrigariam recursos para a campanha de candidatos financiados pela organização criminosa PCC. A desarticulação desse importante núcleo em Ribeirão Preto já foi considerada um grande avanço, uma vez que fechou uma barreira contra o crime organizado e a ascensão desse crime dentro da política, dos governos e do parlamento. Isso significa dizer que o crime organizado deixou de olhar Ribeirão Preto e região como uma boa fonte para entrada de recursos, embora ainda assim essa prática esteja acontecendo. Mesmo porque o Ministério Público monta suas bases em Ribeirão e região, até mesmo para monitorar e realizar operações e prisões em flagrante.

Organizações Sociais no radar do MP 

As Organizações Sociais (OSCs) também estão no radar do Ministério Público e, segundo apurações das investigações, há preocupação de que essas entidades, que administram recursos públicos em áreas como saúde, educação e assistência social, possam ser usadas como canal de desvio de verbas e lavagem de dinheiro ligado a organizações criminosas, inclusive com possíveis conexões com o financiamento de campanhas e a ocupação de espaços de influência no poder público. Investigadores apontam que algumas OSCs já atuam dentro do governo, funcionando como braço para colaborar e passar informações que servem diretamente à campanha eleitoral de candidatos patrocinados pelo PCC. Por meio de contratos e convênios, essas organizações teriam acesso a dados, redes de influência e fluxos de recursos que facilitariam a articulação política da facção, além de abrir caminho para a indicação de pessoas ligadas ao crime em cargos estratégicos.


Gaeco monta base em hotéis e casas na Região de RP


Fontes que preferiram o anonimato informaram que o Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), ligado ao Ministério Público de São Paulo, tem instalado e já mantém bases operacionais na região de Ribeirão Preto. Segundo essas fontes, as bases estão sendo montadas em casas e até em hotéis da cidade e de municípios vizinhos, com o objetivo de dar suporte a investigações, monitoramento e eventuais operações e prisões em flagrante contra organizações criminosas, em especial o PCC. As mesmas fontes destacaram que a presença do Gaeco na região reforça a estratégia de acompanhar de perto a atuação da facção, inclusive no que diz respeito à influência do grupo nas eleições de 2026 e à formação de base de apoio a candidatos em Ribeirão Preto e região.


Crítica à Lei Antifacção


O procurador-geral também criticou um ponto da Lei Antifacção. Embora reconheça que a legislação traz medidas importantes, ele se posicionou contra a mudança que retira do Tribunal do Júri a competência para julgar certos homicídios praticados no contexto de organizações criminosas, os chamados “narcocídios”. Para ele, não seria necessário transferir essa competência para um colegiado de juízes como forma de proteger os jurados de possíveis ameaças; o mecanismo de desaforamento, que permite levar o julgamento para outra comarca em situações específicas, já poderia ser usado nesses casos.