Na Câmara, carro velho obedece, vereador com carro de luxo é playboy

Falta de maturidade e educação politica, uso irregular do bem público, mentiras, omissão, declaração falsa

, atualizado

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Vereadores Câmara Muncipal Ribeirão Preto
Vereadores Câmara Muncipal Ribeirão Preto - Foto: Imagem Reprodução
Vereadores Câmara Muncipal Ribeirão Preto - Foto: Imagem Reprodução

Na Câmara de Ribeirão Preto, parece haver uma lei física não escrita: "quanto mais novo e mais luxuoso o carro oficial, mais o vereador se acha, invisível, incólume a cumprir, regras do regimento interno da Câmara e das leis de trânsito". O veículo novo, de categoria superior, dos privilegiados da Câmara virou coroa sobre o cotidiano; o carro velho, com mais de 10 anos, segue preso à humildade de servir para o serviço formal do vereador como mera ferramenta de trabalho. O desvio de finalidade, o carro à paisana, o adesivo recusado, o uso privado, a mentira nas planilhas — tudo isso se concentra, por unanimidade, em cima da frota de luxo. Os carros antigos continuam obedecendo, respeitando radar, sem receio que uma multa se transforme em inquérito e caso de polícia. A questão não é técnica, é carnavalesca: o vereador, assim que se senta diante de um carro de luxo, retira a própria ética do bolso e deixa o ego tomar o lugar. O volante, para muitos, não é um instrumento de condução, é pedestal. "A soberba surge quando o carro novo de luxo se nega a adesivar o brasão, talvez por ser algo brega e o deboche de vereadores que a placa é considerada “suficiente” para identificar o veículo para o mandato, se confundir com privilégio".

Jean Corauci é o retrato clássico de quem acha que o carro oficial serve para acompanhar a família em férias. Em vez de respeitar o recesso e a obrigatoriedade de uso estrito para atividades da Câmara, o vereador utilizou o carro em viagem de família, próximo ao Réveillon, obviamente em a comunicação oficial norma que deixou de ser obrigação na Câmara. O radar, porém, não se deixou enganar: registrou quilômetros de distância que o vereador estava em relação ao que declarou na planilha de controle de quilometragem do veículo, que na verdade não controla nada, expondo o uso de lazer disfarçado de trabalho. Corauci, que ama Airton Senna, deve ter incorporado espirito do corredor ainda tem que explicar, quem paga os quase $1.500,00 em multas, fora o do BO em questão se será o vereador pagar com seu salário, e quem receberá os pontos na CNH, tudo indica o volume de multas dá o tom que não respeita leis de trânsito e pode ter sua CNH suspensa.

Lincoln Fernandes assim como outros colegas, costumam usar a famosa frase de que a placa do carro oficial já é suficiente para identificálo, como se a ausência do brasão no veículo fosse um objeto estético, cafona e não confirmação de que o carro oficial está sendo tratado como carro particular.  Lincoln  entrou em cena como o “o compadrio de Jaboticabal” visitas secretas do agente sombra e encontro com amigos da confraria, sem aviso prévio ao departamento competente da câmara, enquanto a planilha oficial de quilometragem registrava rotas caipira de bairros internos de Ribeirão Preto. O radar e as multas de pedágio revelaram o deslocamento real, transformando o carro de luxo dele em testemunha de um desvio de finalidade disfarçado de encontro social.

Franco Ferro, atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e cabelereiro dono de salão de beleza masculino é o vereador que transformou o carro oficial em extensão de do vaivém do salão a câmara municipal. Em horário de expediente da Câmara, o veículo aparece parado em frente ao salão de cabeleireiro de sua propriedade por vários dias, em Bonfim Paulista, enquanto o vereador trabalhava no próprio estabelecimento. O episódio, flagrado por veículos de imprensa, chegou ao Ministério Público, que hoje investiga o uso supostamente irregular e possíveis atos de improbidade, colocando o presidente da CCJ na posição constrangedora de quem julga normas, mas não as obedece fora do plenário.

Maurício Vila Abranches é, talvez, o mais sincero dos que se acham à frente de um carro novo. O vereador admite, sem rodeios, que usa o carro oficial para sair de casa, ir à Câmara, voltar para casa, e repetir o trajeto. O problema não é o uso, mas o que ele não diz: muitos desses deslocamentos de “casa para Câmara” mascaram rota de outros lugares, sem que a planilha reflita o verdadeiro destino. O gasto de combustível, em vez de ser arcado pelo vereador, cai em cima do erário público, que financia o trajeto de casa à Câmara — e, por tabela, o que o vereador faz entre um e outro ponto. O paradoxo é que Vila Abranches nunca se recusa a usar o carro oficial; ele simplesmente o trata como transporte rotineiro, sem admitir que isso também é uma forma de desvio de finalidade camuflada. O vereador é conhecido como cupim de aço, conseguiu fundir duas vezes o motor do veículo, a última vez o prejuízo chegou a quase 30 mil.

“Imaginem um playboy que anda com vidros abaixados, som muito alto, fumando, com o braço recostado a porta, percorrendo as ruas do bairro onde morou e cresceu”

Matheus Moreno entra com uma estratégia peculiar: paga o combustível do próprio bolso para evitar questionamentos sobre a quilometragem e os destinos do carro oficial. O raciocínio é cínico, mas eficiente: “se eu não uso a gasolina da Câmara, não preciso explicar aonde o carro vai”. O carro de luxo, lindo e silencioso, assim, pode rodar horas a fio, sem controle, sem confronto de planilhas, sem olhar alheio, sem adesivo veicular é claro, porque o gasto aparentemente “não prejudica” o erário. Na prática, o desvio de finalidade se disfarça de zelo com o dinheiro público, e o vereador, atrás do volante, se sente o único capaz de decidir o que é serviço e o que é privado.

Maurício Gasparini prefere o carro oficial sem adesivo, rodando de estúdio em estúdio de música, cuidando dos “clubes da viola”. O veículo a paisana acompanha a agenda de entretenimento, misturando atividades de gabinete com viagens particulares, ensaios, apresentações e encontros de música. O vereador não vê problema em usar o carro de luxo como se fosse patrocínio particular da Câmara, e o fato de não ter o brasão na lateral fortalece a impressão de carro comum, sem responsabilidade pública. O desvio de finalidade, neste caso, se veste de cultura popular, como se o erário municipal tivesse virado editora de festivais de música.

O contraste com os carros velhos
Enquanto o carro de luxo funciona como espelho de vaidade, o carro velho, com mais de 10 anos, continua sendo tratado como ferramenta de serviço. Vereadores que usam esses veículos não têm histórico de recusar adesivo, nem de virar manchete de radar, nem de ser alvo de investigação por suposto uso privado, talvez por não gerar status de poder que os usuários vereadores ostentam na sociedade, serem mais que outros vereadores, mas é fato que carro velho não engana ninguém: é apenas meio de transporte, sem glamour, sem esposa de luxo, sem olhar de sorrateiro., sem levar a mãe na feira, varejão, no banco para receber aposentadoria, cachorro no petshop, e dai vai...

O que o contraste mostra é simples: o problema não é a frota, é o homem que acredita que, ao se sentar atrás de um volante de carro de luxo, deixa de ser vereador e vira, por alguns quilômetros, proprietário de bem público. Outra leitura, que esses vereadores, os usuários dos carros de luxo, se acham melhores que os outros, a ponto de não só ser privelegiados, mas poder negar o Regimento Interno e Decoro Parlamentar. 

O Ministério Público investiga casos como os de Jean Corauci, Lincoln Fernandes, Franco Ferro, Maurício Vila Abranches, Matheus Moreno e Maurício Gasparini, alguns casos de forma mais aguda pedindo planilhas, relatórios de combustível, mapas de rastreamento e registros de uso. O carro novo, com certeza, já deu a trama; o desafio agora é saber se o vereador, quando voltar a se sentar à frente de um volante, vai conseguir se lembrar que o luxo do carro não é dele, e que quem realmente paga o freio, o combustível e o desgaste da reputação é a própria cidade.

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