'Usar as leis para garantir dignidade que a comunidade PcD merece'

Plauto Nogueira Silva fala sobre desafios médicos e o sonho de ser advogado

, atualizado

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Plauto Nogueira da Silva é escritor e estudante de Direito
Plauto Nogueira da Silva é escritor e estudante de Direito - Foto: Divulgação
Plauto Nogueira da Silva é escritor e estudante de Direito - Foto: Divulgação

Teimoso. Assim pode ser definido Plauto Nogueira da Silva, escritor e estudante de Direito nascido em 14 de agosto de 1991, em Pontal. A primeira teimosia é permanecer vivo. Nascido com mielomeningocele, hidrocefalia e as sequelas da paralisia infantil, recebeu, nas primeiras horas de vida, dos médicos um diagnóstico cruel e taxativo: ele não chegaria a um ano. Passou dos 35, e contando.

A infância foi dividida entre a casa da família e os corredores do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Foram 45 cirurgias, a primeira delas ainda recém-nascido, para a colocação de uma válvula intracraniana. Aprendeu a se recuperar antes de aprender a andar.

Aos seis anos, em junho de 1998, perdeu o pai, Gilberto Nogueira da Silva, em um acidente. Pouco depois, enfrentou uma úlcera grave, ficou seis meses internado e entrou em coma. Saiu dos dois. Mãe e filho foram diagnosticados com depressão — e é sobre isso que ele fala sem rodeio quando conta a própria história.

Aos oito anos, decidiu que escreveria um livro. Cumpriu em 2018, com "Trajetória de um Milagre", autobiografia que reúne a jornada médica, a perda do pai e a fé que, segundo ele, sustentou tudo. Desde então, leva essa história em palestras voluntárias pelo país e atua desde 2008 na defesa da causa da pessoa com deficiência.

Hoje, já nos bancos universitários da Faculdade de Direito, continua teimando, dessa vez em ser advogado. "Quero usar as leis para garantir de forma técnica a dignidade que a comunidade PcD merece." O sonho vem da infância — quando criança, encerrava suas falas em eventos com a mesma frase: "eu quero ser um grande advogado".

Sua definição de si mesmo cabe em uma linha: "De escritor de páginas, eu me tornei escritor da minha própria história". Confira abaixo mais sobre a teimosia de Plauto.


JORNAL RIBEIRÃO - Qual foi o prognóstico médico no seu nascimento?

PLAUTO NOGUEIRA DA SILVA - Nasci com malformação congênita da medula espinhal, hidrocefalia e as sequelas da paralisia infantil (poliomielite). Os especialistas estimaram que eu sobreviveria apenas alguns meses, no máximo até completar um ano. Desde então, venho desmentindo todos os dias esse prognóstico.

Como foi sua infância em relação aos hospitais?

A infância foi dividida entre a casa da família e os corredores de hospitais, especialmente a Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. A sala de cirurgia foi o primeiro ambiente que conheci fora de casa — e um dos que mais frequentei.

Quantas cirurgias você já enfrentou?

Cerca de 45 procedimentos, a maioria na infância. Quando nasci, a primeira cirurgia foi a colocação de uma válvula, seguida de outros procedimentos na coluna. Minha mãe me pegava com todos os cuidados possíveis para a transferência da ambulância e da maca. Conforme fui me desenvolvendo, ela me colocava na cadeira de rodas com todo cuidado.

Você chegou a entrar em coma?

Sim. Após uma úlcera grave, fiquei internado cerca de seis meses na Unidade de Emergência do HC de Ribeirão Preto e entrei em coma. Mas a maior dificuldade sempre é o processo de recuperação pós-cirúrgico.

Lidar com a perda faz parte da sua rotina?

Perdi meu pai com seis anos, em um acidente de carro. Desde a morte dele, comecei a não aceitar o acontecimento. Sinto muita falta e, com tudo o que eu e minha mãe passamos, com as cirurgias, ao longo do tempo ela foi ficando deprimida. Hoje a gente entende que, apesar da tragédia, existem coisas que acontecem porque Deus sabe de tudo — não há lutas sem a vitória dele para nós.

Isso te motivou a escrever?

A ideia nasceu aos oito anos de idade, motivada pela necessidade de entender e me conformar com o mundo. O sonho virou realidade em 2018, com o lançamento de "Trajetória de um Milagre", em Ribeirão Preto.

O que o livro traz?

O meu livro traz um resumo das minhas cirurgias, das doenças congênitas, do meu acompanhamento com médicos ao longo do tempo, psicólogos, fonoaudiólogos e fisioterapeutas. Minha família sofreu muito, mas, graças a Deus, vencemos os desafios.

Qual a mensagem central da obra?

Coragem para vencer as adversidades e confiança na superação. O livro reúne relatos da jornada médica, mensagens de apoio espiritual e lições para quem convive com dores.

Recentemente você iniciou a faculdade de Direito. De onde veio a vontade?

O meu sonho de ser advogado surgiu desde pequeno; sempre sonhei em lutar pelos direitos das pessoas. Acredito que, apesar das situações ou acontecimentos, podemos lutar pelos nossos direitos. Quando criança, participei de eventos e eu encerrava com uma fala que sempre carreguei comigo: "eu quero ser um grande advogado". Quero usar as leis para garantir de forma técnica a dignidade que a comunidade PcD merece.

Qual o papel da religião na sua história?

Encontrei em Jesus Cristo a força para enfrentar cada desafio. Vou à igreja, compartilho meu testemunho sempre que tenho oportunidade de pregar o Evangelho e realizo palestras motivacionais com mensagem de esperança, inclusão e valorização da vida.

Como você define sua própria trajetória?

De escritor de páginas, eu me tornei escritor da minha própria história.

Você já sofreu alguma situação de discriminação?

Já. A discriminação nem sempre vem de forma explícita; muitas vezes ela aparece no olhar, no comentário dito em voz baixa, na suposição de que eu não sou capaz de fazer algo sozinho. Aprendi a não responder com raiva, mas com presença: quando eu ocupo o espaço que é meu, o preconceito perde o argumento. Foi por causa dessas experiências que a causa da pessoa com deficiência virou a minha bandeira, e é por isso que quero o Direito nas mãos.