"Quanto mais conectados nesse modelo estamos, mais distantes de nós mesmos ficamos"

Consultora organizacional e mentora de carreira, Danielle Cristina Moro de Sousa fala sobre hiperconectividade, produtividade, limites e a necessidade de recuperar espaços de presença em um cotidiano cada vez mais mediado pelas telas

, atualizado

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Para Danielle Moro, repensar a relação com a tecnologia passa por recuperar a presença, o silêncio e as conexões reais
Para Danielle Moro, repensar a relação com a tecnologia passa por recuperar a presença, o silêncio e as conexões reais - Foto: Divulgação
Para Danielle Moro, repensar a relação com a tecnologia passa por recuperar a presença, o silêncio e as conexões reais - Foto: Divulgação

Com mais de 25 anos de experiência em Gestão de Pessoas, desenvolvimento de lideranças e cultura organizacional, Danielle Cristina Moro de Sousa acompanha de perto as transformações nas relações de trabalho. Sócia da Veropequi Gente e Cultura, graduada em Antropologia Cultural e com pós-graduações em Gestão de Projetos Inovadores e Administração Hoteleira, ela também atua como consultora organizacional e mentora de carreira em projetos realizados em todo o Brasil. Sua trajetória profissional convive com um olhar interessado nas dimensões mais humanas da existência: Danielle coleta histórias, memórias, conchas e pedras e encontra na literatura e na arte uma forma de compreender a realidade. "A realidade precisa de companhia", define.

Em sintonia com as reflexões propostas pelo Setembro Amarelo, Danielle participa na próxima sexta-feira (25/09) da programação do Dabi Business Park dedicada à saúde emocional e às relações contemporâneas com o trabalho e a tecnologia. Na roda de conversa "O custo real da performance digital", ela se junta a Juliana Nasasi e Jhoanne Hansen, da Desvirtua Bem-Estar, para discutir hiperconectividade, autocobrança, comparação nas redes sociais e a dificuldade de estabelecer limites entre a vida profissional e pessoal. Nesta entrevista, Danielle amplia essa reflexão e fala sobre os efeitos da conexão permanente, a transformação da produtividade em medida de valor pessoal e a necessidade de recuperar espaços de presença, silêncio e relações fora das plataformas.

Jornal Ribeirão - Hoje trabalhamos, estudamos, nos informamos e nos divertimos no ambiente digital. Ainda é possível falar em "desconectar" ou, para a maioria das pessoas, isso já não é uma escolha?

Danielle Sousa - Conectar e desconectar viram verbos que expressam múltiplas ações: eles tiram ou colocam você em uma plataforma, em um sistema e em um modelo na qual há a expectativa de uma relação contínua. Gera grande pânico hoje a possibilidade de estarmos desconectados das plataformas, sejam de trabalho, de mídias, de jogos, de notícias. Acho paradoxal que quanto mais conectados nesse modelo estamos, mais distantes de nós mesmos ficamos. Sim, a desconexão é necessária para que uma outra espécie de conexão ocorra: aquela primeira e que há milhões de anos nos orienta: a pulsação do coração, o movimento respiratório, os sons naturais ou do entorno, a linguagem verbal e do corpo. Enquanto espécie somos antigos demais para falar que fizemos escolhas melhores de conexão.

Muitas vezes a solução apresentada para a hiperconectividade é individual: desligar notificações, controlar o tempo de tela, estabelecer limites. Isso é suficiente ou empresas e lideranças também precisam rever a forma como organizam o trabalho e cobram disponibilidade?

Temos nossa responsabilidade individual de estabelecer limites e essa fronteira começa com uma resposta clara: das horas conectadas, qual a porcentagem do tempo de presença, de autoconsciência do que e do porquê faço o faço? Estou sendo guiada, orientada por quem? Por qual régua? Tendo essa clareza, vamos nos relacionar de forma mais direta e crítica com as exigências do que chegam das Instituições e do mundo corporativo. Na Veropequi temos tido o prazer de trabalhar com muitas empresas que estabelecem formas muito conscientes de exigência de presença física e de regras claras de autonomia no trabalho remoto.

A qualidade do que se entrega e o nível de compromisso real dos funcionários se altera para melhor mediante a essa relação clara de cuidado.

Ser produtivo deixou de ser apenas uma característica do trabalho e, para muitas pessoas, passou a funcionar como uma medida de valor pessoal. Como diferenciar uma rotina produtiva e saudável de uma cultura ou hábito em que estar permanentemente ocupado, disponível e conectado passa a ser entendido como sinônimo de comprometimento ou competência?

Como preparação para a Roda de Conversa do Dabi que abordará esse tema, Juliana Nasasi da Desvirtua e eu falamos muito dessa persona que fomos construindo recentemente de parecer produtivo o tempo todo. Essa necessidade parece ficar de pé com justificativas diferentes dependendo do lugar e da cultura, mas ganha contornos insuportáveis em sociedades, comunidades ou bolhas mais competitivas. A competição dentro da Internet e das diferentes janelas das mídias nos empurram para um julgamento de que guardarmos um tempo para descanso ou não fazer nada é desperdício e leva ao lugar do não sucesso. Construímos uma relação com o tempo que os intervalos não existem. Na quebra, no intervalo, no silêncio, na observação, no andar sem mapa, sem rumo ou na escolha de viver sem mostrar para outros mora um grande desconforto. Sustentar essa ideia de que tudo é e precisa ser produtivo adoece e adoeceu nossa espécie. Plataformas sociais de conexão profissional são lugares ótimos para observar essas relações. Mas estão em todas, até nas plataformas de encontros casuais. Quem você escolhe sustentar como persona em cada uma delas? Onde habita realmente o que cada um é?

Por que parar, ficar em silêncio ou simplesmente não produzir pode ser tão difícil hoje? O que esses momentos podem devolver às pessoas?

Devolver não porque isso nunca nos foi tirado. Mas jogam um canhão de luz na certeza de que somos finitos. Sabemos disso e fingimos com muito ruído, movimento, desconfiguração e anestesiamento que não somos. Encarar essa realidade e essa dor há milhões de anos nos levou à arte. E para fazer arte eu preciso de silêncio em algum momento.

Certamente a tecnologia e o ambiente virtual continuarão ocupando um espaço central na nossa vida e no trabalho, qual deveria ser a discussão daqui para frente para estabelecer uma relação saudável com esse ambiente?

Todas as discussões sobre regulamentação são necessárias, pois muitas formas de violência se utilizam dessa nossa fascinação pela disponibilidade digital. Precisamos continuar campanhas, projetos coletivos de conexão real, retomar a rua e os espaços abertos como formas de conexão com as criatividades e imperfeições humanas. Estamos perdendo nossa capacidade de escuta, de percepção ampla e precisamos saber escolher como vamos usufruir das tecnologias que criamos, como a conectividade digital pode me aproximar de soluções e dados que antes eram inimagináveis. Mas precisamos saber o que queremos fazer de fato com tudo isso. Escolhemos de fato ou nos deixaremos à deriva?!

E há uma contradição ainda mais específica para profissionais que trabalham justamente na construção desse ambiente digital — como desenvolvedores, profissionais de tecnologia, comunicação e redes sociais. Como lidar com o fato de que, para essas pessoas, a mesma tecnologia que precisa ser questionada também é a própria ferramenta de trabalho? É possível criar uma relação mais consciente com a conectividade sem abrir mão dela?

Eu penso que é fundamental profissionais que trabalham nessas áreas de tecnologia, sobretudo que trabalham com mídias digitais, que são lugares muito absorvedores de atenção, que entendam sua intencionalidade de ficar ali. É a questão da presença, de quanto tempo realmente estou dedicada e quanto de mim tá presente percebendo de fato o que eu estou fazendo e o quanto eu estou consumindo do meu tempo pra isso.

Uma sugestão é criar marcadores de tempo, de trabalhos importantes e marcadores de objetivos individuais mesmo. Planejar o que eu quer realizar naquele dia, até onde ir, quando parar, fazer intervalos, etc.

A gente tem um exemplo maravilhoso que é o próprio Dabi, como um centro de inovação e também um centro corporativo que reúne muitas empresas e reúne muitas possibilidades de quebra desse trabalho dedicado. Não só pelos espaços, pela arquitetura que possibilita ter uma conversa com outras empresas e outros profissionais e fazer realmente essa quebra saudável do tempo, mas também fazer o trabalho ser mais coletivo.

Eu vejo que é fundamental ter outras pessoas, outros profissionais observando e ajudando a gente a perceber o real valor do trabalho e a qualidade desse impacto dentro da nossa vida.