'Fenasucro se consolida como palco das novas oportunidades'

Paulo Montabone destaca expansão dos biocombustíveis e expectativa de negócios

, atualizado

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Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana: inovação em bioenergia
Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana: inovação em bioenergia - Foto: Divulgação
Paulo Montabone, diretor da Fenasucro & Agrocana: inovação em bioenergia - Foto: Divulgação

Diretor da Fenasucro & Agrocana e um dos nomes mais atuantes na defesa da cadeia sucroenergética, Paulo Montabone acompanha há anos a transformação da feira de Sertãozinho em uma das principais vitrines mundiais de tecnologia, negócios e inovação em bioenergia. Em entrevista ao Jornal Ribeirão, concedida na quinta-feira, ele afirmou que a edição deste ano ocorre em um ambiente mais favorável para investimentos e negociações.

A Fenasucro deste ano está mais movimentada do ponto de vista político?

Acho que, politicamente, a feira está se transformando em um palco de discussões sobre o futuro da bioenergia. É aqui que as autoridades conseguem entender, junto ao mercado, quais políticas públicas são necessárias para o desenvolvimento do setor. Independentemente de qual governo estará à frente do país, é fundamental conhecer o futuro da bioenergia no Brasil e as possibilidades de internacionalização do etanol e dos biocombustíveis, para que eles se tornem commodities globais. Os políticos estão vindo à Fenasucro justamente para colher essas informações, incorporá-las a seus planos de governo e ajudar a manter o Brasil como protagonista mundial em bioenergia e tecnologia.

A feira também tem sido procurada institucionalmente para colaborar com propostas e planos de governo?

A feira está servindo como um briefing para que os políticos compreendam melhor as soluções, as dores e as oportunidades do setor. A partir dessas informações, eles poderão formular políticas públicas capazes de levar o Brasil além do estágio em que já se encontra. Hoje, somos o maior exportador de tecnologia sucroenergética do mundo e o segundo maior produtor de etanol. Também estamos avançando em outras possibilidades, como combustíveis para a navegação, biobunker, hidrogênio verde, biogás e biometano. Tudo isso permite que o Brasil tenha participação efetiva tanto na indústria nacional quanto na indústria global.

Na última edição, havia um cenário de espera e cautela. Neste ano, o mercado parece mais disposto a comprar tecnologia e investir. Isso deve se refletir no volume de negócios?

Com certeza. O volume de negócios deverá aumentar. Estamos recebendo várias empresas estrangeiras que vêm à Fenasucro em busca de parcerias para a fabricação de combustíveis sustentáveis de aviação e biobunker.A ApexBrasil escolheu a Fenasucro como palco principal para demonstrar o potencial brasileiro na fabricação de biocombustíveis voltados à mobilidade de baixo carbono e aos veículos pesados. Há cerca de 7 bilhões de dólares em oportunidades e negociações na feira. A indústria brasileira está preparada para liderar esse processo ou será necessária a participação predominante de empresas transnacionais? A indústria brasileira está estrategicamente bem posicionada para participar da transição energética global. Ela não atende apenas ao mercado da cana. Também atua nos segmentos de milho e de outros cereais, na produção de biodiesel e de biocombustíveis à base de cana. Estamos falando de biodiesel, etanol, hidrogênio verde, biometano, combustível sustentável de aviação e biobunker. A partir de uma mesma cadeia produtiva, estamos desenvolvendo diversos produtos que contribuem para um futuro mais sustentável.

Esses novos biocombustíveis podem ganhar, no médio prazo, mais importância do que os mercados tradicionais de açúcar e etanol?

As indústrias brasileiras de base estão aptas a fornecer produtos, equipamentos e serviços não apenas para a indústria sucroenergética, mas também para os setores de biodiesel, combustível de aviação e biobunker.A indústria de base brasileira já é tecnologicamente muito avançada no setor sucroenergético. Ela se atualizou ainda mais com a fabricação de etanol de milho e está avançando nos segmentos de biogás e biometano. Isso demonstra que temos capacidade de melhorar continuamente nossas entregas. É uma indústria forte, presente em polos como Piracicaba, Sertãozinho e Araçatuba, entre outras regiões que produzem equipamentos e soluções para o próprio setor industrial. Essa atualização tecnológica ocorre todos os anos. O mês de agosto se consolidou como o período em que a indústria se reúne para atualizar suas tecnologias, ampliar negócios e discutir os caminhos do setor energético.

São Paulo tem limitações para ampliar as áreas de cultivo. Outras regiões podem suprir a demanda futura por esses produtos?

A tecnologia permitirá extrair maior eficiência da mesma área plantada de cana. Apenas com a irrigação, por exemplo, já é possível obter ganhos de produtividade de até 30%. Com o avanço das técnicas de manejo e irrigação, esse potencial pode ser ainda maior. Também temos muitas áreas de pastagens degradadas que podem ser transformadas em áreas de cultivo. Assim, conseguiremos ampliar tanto a produção quanto a produtividade. O Brasil produz açúcar e cachaça há cerca de 500 anos, desde o período colonial. Agora, porém, estamos diante de uma nova etapa, com a expansão das soluções voltadas à energia e à mobilidade de baixo carbono.

A expansão deve ocorrer em áreas tradicionais ou em novas regiões?

A região do Matopiba, por exemplo, está sendo desbravada pelo etanol de milho. A cana também está chegando a novas áreas, assim como outras culturas, como o trigo. Isso demonstra que as soluções desenvolvidas pela nossa indústria não dependem de uma única região. Elas podem ser adaptadas e levadas para os locais onde há demanda e condições de produção. No Norte e no Nordeste, por exemplo, existem desafios maiores para a produção. Ao mesmo tempo, essas regiões representam uma grande oportunidade para ampliar o cultivo e desenvolver novas indústrias.

A decisão de concentrar a Fenasucro na indústria e na agroindústria foi importante para diferenciar a feira de eventos como a Agrishow?

A Fenasucro é diferente da Agrishow. Aqui, não tratamos apenas do plantio e da colheita. Trabalhamos com o que é produzido no campo e com a transformação dessas matérias-primas em produtos e soluções de maior valor agregado. Essa escolha pela indústria fez com que a Fenasucro se fortalecesse como uma feira voltada à agroindústria. Hoje, somos capazes de mostrar como as matérias-primas podem ser transformadas em produtos sustentáveis, alimentos, biocombustíveis e soluções de mobilidade de baixo carbono. O CEISE acompanhou essa transformação. A entidade deixou de ser uma organização de caráter regional e municipal para se tornar uma instituição de alcance nacional, capaz de levar as indústrias brasileiras de base aos quatro cantos do mundo.

Qual é a expectativa de negócios para esta edição?

Acredito que vamos superar R$ 13 bilhões em negócios, considerando as novas oportunidades em biogás, biometano, corredores verdes, rotas verdes e combustível sustentável de aviação. A ApexBrasil está presente com empresas e investidores interessados no setor, e há cerca de 7 bilhões de dólares em oportunidades relacionadas aos combustíveis sustentáveis. Também temos o exemplo do primeiro navio movido a etanol que saiu do Porto de Santos com quase 100 mil contêineres. Isso mostra que estamos no caminho certo: a indústria está deixando de atuar apenas nos veículos leves e avançando para os veículos pesados. Em vez de 50 litros de etanol em um tanque de automóvel, podemos falar em centenas de milhares de litros de etanol no tanque de um navio.