'Como uma criança pode amar o que não está no seu cotidiano?'
Escritora Aline Neli fala sobre o interesse das futuras gerações pela biodiversidade
, atualizado
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A escritora e pesquisadora Aline Neli lançou recentemente o livro "As Incríveis Crianças Biomas", uma aventura protagonizada por crianças de diferentes origens e contextos, que representam a pluralidade do povo e os seis biomas do País.
A narrativa busca despertar o interesse das novas gerações pela biodiversidade brasileira. Nessa entrevista ao Jornal Ribeirão, ela fala sobre a importância de uma biodiversidade além dos livros e das telas.
Jornal Ribeirão: Aline, como surgiu o estalo inicial para personificar os biomas brasileiros em personagens infantis? Houve alguma vivência específica na sua trajetória como pesquisadora que acendeu essa ideia?
Sou mineira e cresci nadando no rio Grande, o Rio que conecta Minas Gerais e São Paulo. A natureza no seu estado de origem sempre esteve presente na minha vida desde a infância, e essa relação está interligada com a minha atuação cidadã e profissional no mundo.
Durante o mestrado, eu criei e sistematizei a Abordagem Artística Ecológica Circular - AAEC, uma abordagem ecoartística transdisciplinar, que tem o objetivo de conectar crianças e adolescentes à natureza através das artes, educação, cultura e ecologia, para mitigar o Transtorno do Déficit de Natureza (TDN) e promover processos de aprendizados criativos libertadores em artes e ciências. O TDN afeta muitas crianças, adolescentes e adultos em geral, principalmente nos grandes centros urbanos por causa da ausência da natureza nos espaços de vida. E isso gera diversas mazelas sociais, emocionais, psicológicas e etc.
O livro acompanha seis crianças Dandara, Maria, Weena, Zaki, João Pedro e Acauã, que após um encontro entre seus responsáveis, se reúnem para brincar. Longe das telas e conectadas à imaginação, elas embarcam em uma jornada repleta de encantaria, descobertas e aprendizados sobre os diferentes biomas do Brasil.
Cada criança representa um bioma brasileiro e toda a sua diversidade ecológica, mas não só isso, a pluralidade étnico-racial, social e de gênero do povo brasileiro.
Como foi o desafio de traduzir a complexidade científica dos nossos biomas para uma linguagem leve, lúdica e acessível às crianças?
A obra nasceu da premiação internacional Becas de Exploración Narrativa: Familias que Conectan, promovida pela plataforma Familias: Ahora que investe em narrativas inovadoras na América Latina, e chegou ao público durante um evento no Centro de Referência em Educação para as Relações Étnico-Raciais.
Além de celebrar a literatura infantil, o livro apresenta uma proposta educativa que une imaginação, diversidade e preservação ambiental. A Secretaria Municipal de Educação de Ribeirão Preto distribuirá gratuitamente exemplares do livro às bibliotecas das escolas públicas municipais das áreas urbana e rural de Ribeirão Preto, ampliando o acesso dos estudantes a conteúdos voltados para a valorização dos biomas brasileiros.
Você sabe que a urgência climática é um dos temas mais debatidos do nosso século. Você enxerga o livro também como uma ferramenta de apoio pedagógico para escolas e educadores na região de Ribeirão Preto?
Sim. O livro propõe uma experiência sensível, lúdica e crítica, estimulando crianças, adolescentes, famílias e comunidades a refletirem sobre a importância do contato com a natureza. Ao mesmo tempo, a obra chama atenção para um desafio contemporâneo: a redução das áreas verdes nos centros urbanos em tempos de mudanças climáticas, pois muitas cidades não cumprem o índice de arborização recomendável (por metros quadrados) pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O fato das cidades brasileiras ainda não alcançarem os índices recomendados de arborização estabelecidos por organismos internacionais pode aumentar a vulnerabilidade a desastres socioambientais. Dessa forma, a narrativa busca despertar o interesse coletivo pela preservação ambiental e pela construção de cidades mais sustentáveis.
As crianças estão muito conectadas às telas e, muitas vezes, distantes da natureza pura. De que forma você acredita que a literatura, e especificamente este livro, pode funcionar como uma ponte para reconectar os pequenos com o meio ambiente?
Acredito que o livro e a mediação educativa dos professores e famílias poderão impulsionar uma reflexão a respeito da importância de se relacionar com a natureza e preservar, conservar e restaurar a biodiversidade. Como uma criança poderá amar aquilo que não vivencia e não está presente no seu cotidiano? Desejo que o livro gere mudanças ecológicas para que Ribeirão e outras cidades priorizem o bem viver coletivo e os biomas brasileiros.
Estamos na região do Cerrado, um bioma rico, mas que enfrenta sérios desafios de preservação. Como o Cerrado é representado no livro e qual a importância de fazer as crianças da nossa região valorizarem essa riqueza que está no quintal de casa?
O Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Pampa, o Pantanal e a Amazônia são apresentados pelas seis personagens crianças heroínas da história. Também são apresentados alguns animais desses biomas, tipo de vegetação e outros. O livro também tem um glossário que poderá ser aprofundado e que ensina a respeito dos animais que são viajantes e os animais que só vivem no próprio bioma de origem. Há uma atividade interativa também que permite a criança, o adolescente ou adulto criar e fazer parte do livro.
A ideia é justamente promover essa conexão de cada criança com o bioma do seu território, mas não só isso, perceber que todos os biomas estão interligados e são interdependentes.
Como tem sido o retorno dos leitores?
Tenho recebido muita devolutiva bonita a respeito da obra. No dia do lançamento depois da contação de histórias que fiz, uma criança da escola EMEF Profª Maria Inês Vieira disse que aquele dia foi o melhor dia da vida dela. Eu fiquei contente e triste ao mesmo tempo porque são crianças que pouco saem do próprio bairro. Sempre que faço um bate-papo, eu me assusto com a quantidade enorme de crianças que jamais viram o mar, um rio, uma cachoeira e nem sequer viajaram. Sinto que o meu trabalho é pequeno e insuficiente e que elas merecem muito mais. Isso me dói profundamente e esse é um motivo para seguir escrevendo e construindo imaginários e possibilidades de efetivar direitos humanos e cidadania através da literatura.
Nossas infâncias merecem realizar os seus sonhos e brilhar em vida.
Qual é a principal mensagem ou sentimento que você espera que fique após fechar a última página do livro?
Eu espero que o livro impacte mais de 52 mil crianças da rede municipal de educação de Ribeirão Preto- SP e mais crianças, famílias e comunidades de outras cidades do Brasil e do mundo. E que haja um movimento em prol da biodiversidade na cidade, para que haja mais áreas ricas em vegetação, cultura, esportes, ciências e lazer para as infâncias e adolescências da cidade.
Eu também desejo que as autoridades públicas e privadas se comprometam com a construção de uma cidade educadora, cidadã e biodiversa com foco nas ações climáticas e no bem viver coletivo.