'Somos uma gota do oceano'

Criado há 26 anos por Dorinho Pereira, Voluntários do Sertão está de malas prontas para ir a Patintins, no Amazonas

, atualizado

Compartilhar notícia

A partir de 30 de maio, Parintins, no Amazonas, será o centro de uma das maiores mobilizações humanitárias do país. A 22ª edição do projeto Voluntários do Sertão desembarca na cidade com a Operação Excelsior, realizada em parceria com a Força Aérea Brasileira (FAB), para levar assistência médica e odontológica a populações com acesso restrito a especialistas no Baixo Amazonas.

Criado há 26 anos por Doreedson Pereira, o Dorinho, o Voluntários do Sertão nasceu como uma iniciativa pessoal para ajudar a terra natal do idealizador, no interior da Bahia, e cresceu até se tornar um movimento de alcance nacional, com sede em Ribeirão Preto. Ao longo de sua trajetória, o projeto já ultrapassou a marca de 500 mil atendimentos gratuitos e reuniu mais de 3 mil voluntários em diferentes edições, consolidando-se como uma das principais ações de solidariedade em saúde do país.

Nesta edição em Parintins, cerca de 200 profissionais voluntários enfrentarão os desafios geográficos da Amazônia para atender moradores da cidade e de comunidades ribeirinhas, em uma operação que combina logística militar, estrutura de saúde e trabalho social. A iniciativa deve contemplar consultas, exames, procedimentos odontológicos e encaminhamentos especializados, em uma região onde o acesso a esse tipo de serviço costuma ser limitado.

Em entrevista ao Jornal Ribeirão, Dorinho detalha a estrutura montada para a missão, o impacto social esperado e os princípios que mantêm viva a rede de solidariedade construída ao longo de mais de duas décadas. Confira.

JORNAL RIBEIRÃO — Em que momento o senhor percebeu que o projeto deixaria de ser apenas uma ação solidária para se tornar um movimento de impacto nacional?

DORINHO PEREIRA — O Voluntários do Sertão começou de um jeito muito pessoal, um sonho meu de levar ajuda para a minha terra, no interior da Bahia, onde vi de perto a falta de tudo, principalmente de saúde. Eu comecei pagando médicos do meu bolso, levando o que podia. Mas a demanda era sempre maior do que eu conseguia atender. Eu programava para 500, apareciam 5 mil. Foi aí que percebi que não dava para ir sozinho.

Quando comecei a buscar ajuda e vi a vontade de tanta gente em fazer o bem, em se juntar a essa causa, percebi que não era mais só um sonho meu, mas um sonho coletivo. A partir de 2006, quando os voluntários começaram a se unir, a estrutura cresceu, e o que era uma ação pontual virou um movimento que hoje impacta o Brasil. É a união de muitos sonhos que faz a diferença.

Por que Parintins, no Amazonas, foi escolhida como destino desta edição?

Nossa missão sempre foi ir onde o acesso à cidadania é mais difícil. Parintins, no Amazonas, representa um desafio e uma oportunidade imensa. A região amazônica, com suas comunidades ribeirinhas e distâncias geográficas, enfrenta carências muito específicas em saúde, saneamento básico e acesso a especialistas. A falta de infraestrutura e a dificuldade de transporte tornam o atendimento médico uma realidade distante para muitos. É um abraço de solidariedade que atravessa o país para chegar até eles.

Como está sendo a preparação emocional, logística e estrutural para mais essa missão?

Cada missão é um desafio, e Parintins não é diferente. A preparação é intensa em todas as frentes. Emocionalmente, a gente sabe que é uma experiência transformadora para todos, tanto para quem recebe quanto para quem doa. A ansiedade é grande, mas a certeza de que estamos fazendo o bem nos impulsiona. Logisticamente, é uma operação gigantesca. Estamos falando de transportar equipes, equipamentos e insumos para uma região de difícil acesso. É um trabalho de muitos meses, de muita gente envolvida, mas a paixão pela causa nos move.

Quantos voluntários estarão envolvidos nesta?

Nesta 22ª edição em Parintins, teremos cerca de 200 profissionais voluntários. É uma equipe multidisciplinar, como sempre buscamos. Contamos com médicos de diversas especialidades, como clínica geral, pediatria, dermatologia, ginecologia e oftalmologia, além de dentistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, farmacêuticos e profissionais de apoio administrativo e social. Essa diversidade de áreas é fundamental para oferecer um atendimento completo e atender às diferentes necessidades da população.

Qual é hoje o maior desafio para manter o projeto vivo e crescendo?

O maior desafio, sem dúvida, é a sustentabilidade. Manter um projeto dessa magnitude, que cresce a cada ano e alcança regiões cada vez mais distantes, exige recursos financeiros e apoio contínuo. Dependemos muito de doações, de aportes empresariais e da realização de eventos. Além disso, a logística é sempre um ponto crítico. Mas o que nos mantém firmes é a crença no propósito e a paixão dos nossos voluntários e parceiros. É um trabalho de formiguinha, de convencimento, de mostrar o impacto real que geramos. A boa vontade é o motor, mas a gestão e o apoio são o combustível.

Em um mundo cada vez mais acelerado e individualista, como você explica o fato de tantas pessoas ainda se disponibilizarem para doar tempo, conhecimento e energia ao próximo?

Eu acredito que, no fundo, o ser humano é solidário. As pessoas têm um desejo genuíno de fazer o bem, de se conectar com algo maior. O Voluntários do Sertão oferece essa oportunidade. Muitos vêm em busca de um sentido, de uma experiência que os tire da rotina e os coloque em contato com uma realidade diferente. E o que eles encontram é uma troca incrível: eles doam seu tempo e conhecimento, mas recebem em troca um carinho, uma gratidão e uma transformação pessoal que não tem preço. É uma via de mão dupla, onde todos saem ganhando. É a prova de que a empatia e a solidariedade ainda são forças muito poderosas no mundo.

Existe alguma história vivida ao longo dessas expedições que marcou profundamente você e mudou sua visão de vida?

São tantas histórias que é difícil escolher uma só. Mas lembro de uma senhora, lá no interior da Bahia, que nunca tinha feito uma mamografia na vida, já com mais de 60 anos. Ou de um homem com um nódulo enorme nas costas que o impedia de trabalhar, e que uma cirurgia simples resolveu. O que mais me marca é ver a simplicidade da gratidão. Um sorriso, um abraço, um olhar de esperança. Pessoas que voltam a enxergar, a andar, a ouvir, a sorrir. Isso me mostra que o que fazemos vai muito além de um procedimento médico; é devolver a dignidade, a capacidade de sonhar e de viver plenamente. Cada história dessas reforça minha crença de que vale a pena cada esforço.

Que impactos permanentes vocês buscam gerar nas cidades atendidas?

Nosso objetivo é ir além da assistência imediata. Queremos deixar um legado, uma semente de transformação. Isso se dá de várias formas: por meio da capacitação de profissionais locais, da doação de equipamentos para as unidades de saúde, da promoção de educação em saúde e higiene e do estímulo ao desenvolvimento de projetos de agricultura familiar, como já fizemos em algumas edições. Queremos que as comunidades tenham ferramentas e conhecimento para continuar cuidando de si mesmas após a nossa partida. É um trabalho de empoderamento, de mostrar que a mudança é possível e que eles são capazes de construí-la, com o apoio que pudermos oferecer.

Nesta edição, qual expectativa de atendimentos e impacto social vocês estimam alcançar em Parintins?

Em Parintins, nossa expectativa é realizar milhares de atendimentos gratuitos. Embora seja difícil cravar um número exato antes da ação, a experiência de edições anteriores, como a de Breves, no Pará, em 2025, quando realizamos mais de 58 mil atendimentos, nos dá uma base. Queremos superar essa marca e levar o máximo de cuidado possível para a população de Parintins e das comunidades do Baixo Amazonas. O impacto social será imenso, não só nos números, mas na qualidade de vida, na esperança renovada e na dignidade que poderemos oferecer a cada pessoa atendida.

O que normalmente muda dentro do voluntário depois que ele vive uma experiência como essa?

É impressionante a transformação que acontece com os voluntários. Muitos chegam com a intenção de ajudar, mas saem com a sensação de que foram mais ajudados do que ajudaram. A experiência de se deparar com realidades tão diferentes, de ver a resiliência das pessoas e a gratidão em um simples olhar, tudo isso muda a perspectiva de vida. Eles voltam com um senso de propósito renovado, com mais empatia e com uma visão mais ampla do mundo e do seu papel nele. É um choque de realidade que nos faz valorizar o que temos e nos impulsiona a fazer ainda mais. Muitos dizem que é o melhor momento que tiveram na vida. É uma via de mão dupla de aprendizado e crescimento.

O Voluntários do Sertão não é a solução para todos os problemas do Brasil, mas é uma gota no oceano que faz diferença para milhares de pessoas. E essa gota inspira outras gotas, que se juntam e formam um rio. Acredito que a esperança é contagiante, e, quando a gente vê o impacto real do nosso trabalho, a fé na transformação se renova a cada dia.