Em busca da pacificação perdida

Daniel Gobbi, novo presidente da Câmara fala em implementar mecanismos de fiscalização e prega diálogo

, atualizado

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Vereador de primeiro mandado, mas com passagem pelo Executivo municipal - foi vice-prefeito por quatro anos na gestão Duarte Nogueira, Daniel Gobbi chega, em seu segundo ano no Legislativo, à presidência da Câmara em um momento de forte turbulência política.

Com trajetória que inclui atuação como secretário municipal de Planejamento e vice-prefeito, ele construiu sua carreira pautado pela gestão pública e pela articulação política, o que agora coloca à prova em um cenário de crise institucional e acirramento entre parlamentares.

Conhecido por um estilo mais pragmático e voltado ao diálogo, Gobbi assume o comando do Legislativo após a saída inesperada do então presidente Isaac Antunes, que renunciou depois de recomendação do Ministério Público, que viu irregularidade no fato de Antunes ter sido eleito três vezes consecutivas para a Presidência.

Em meio a questionamentos jurídicos e pressões políticas, a chegada ocorre em um contexto de desgaste da imagem da Câmara, marcada por críticas quanto à falta de fiscalização, conflitos internos e episódios controversos envolvendo vereadores e servidores.

Ao assumir, Gobbi sinaliza uma gestão baseada na pacificação do ambiente político, no fortalecimento do papel fiscalizador da Câmara e na busca por maior transparência. Com mandato mais curto à frente da presidência, o desafio será equilibrar a estabilidade interna com respostas concretas à sociedade, em um dos períodos mais conturbados recentes do Legislativo municipal. Confira os principais trechos da entrevista exclusiva concedida ao JR.

JORNAL RIBEIRÃO - O senhor está assumindo a presidência da Câmara após a saída do Isaac Antunes (PL), em meio a uma situação bastante conturbada, com envolvimento do Ministério Público e decisões judiciais. Além disso, a Câmara vive um momento muito dividido, com conflitos entre vereadores, algo que eu, particularmente, nunca vi em mais de 20 anos cobrindo política. Como você analisa esse cenário e como pretende atuar para pacificar esse ambiente?

DANIEL GOBBI - Na verdade, essa circunstância da saída do Isaac nos surpreendeu. A gente entendia que o mandato de 2024, por se encerrar a legislatura, não contaria para as próximas. Eu não tinha sido notificado de discussão no Ministério Público nem da decisão do STF.

Quando fomos notificados, foi uma surpresa. Houve uma reunião e o próprio Isaac me indicou para assumir a presidência. Eu encaro isso como um chamado.

Na minha vida pública, sempre me preparei para os desafios. Agora, na presidência, precisamos atuar com diálogo, construir pautas estruturantes e mostrar que os vereadores trabalham para a população — que é a nossa verdadeira chefe.

Precisamos avaliar condutas quando necessário, mas o principal papel da Câmara é fiscalizar. Eu também trago minha experiência como secretário e vice-prefeito para contribuir com a gestão e ajudar a apontar caminhos para o Executivo.

O senhor assume após conflitos fortes, especialmente entre Lincoln Fernandes e Isaac. Um dos argumentos do Lincoln era de perseguição pessoal dentro da Câmara. E o senhor mesmo já teve atritos com ele no passado. Como pretende conduzir esse processo? Isso pode interferir nas investigações?

Hoje eu sou presidente de todos os vereadores. Minha conduta será de total isenção. O que aconteceu no passado fica no passado — hoje sou um político mais maduro.

O processo envolvendo o Lincoln já está em andamento, com comissão processante formada, ouvindo testemunhas. No momento certo, isso será levado ao plenário.

Minha atuação será totalmente isenta nesse processo.

Sua gestão será mais curta. Qual marca você pretende deixar? Qual legado quer construir nesse período?

Eu estou há poucos dias no cargo, ainda entendendo toda a estrutura.

Mas algumas prioridades são claras: concluir a obra do plenário para aproximar a população e criar um observatório de indicadores de políticas públicas para ampliar a transparência da Câmara.

A ideia é fortalecer o papel da Câmara na gestão da cidade e contribuir com políticas públicas mais eficazes.

A Câmara vem sendo criticada por falta de fiscalização e por omissão em casos polêmicos — como projetos aprovados sem debate e situações envolvendo denúncias contra vereadores. Como mudar essa imagem?

Precisamos dar condições reais para os vereadores exercerem sua principal função, que é fiscalizar.

A população muitas vezes não sabe, mas a capacidade do vereador de criar leis é limitada. Então, a fiscalização é essencial. Precisamos melhorar o suporte técnico, inclusive com auditoria, para acompanhar orçamento e execução das políticas públicas.

Não sei se optaremos por uma auditoria externa, ou mesmo se criaremos um corpo técnico para dar suporte aos vereadores na análise contábil, nos moldes do que existe com o Tribunal de Contas do Estados, por exemplo, mas concordo que esse é um tema que precida ser aprofundado.

Sobre condutas, a decisão é do plenário. A Câmara é democrática — quem tem mais votos decide.

Promete mais ação em casos de suspeitas de malfeitos, tanto da prefeitura quando dos vereadores e servidores?

Se de fato tiver algo irregular, nós vamos apurar e resolver o problema. Mas por enquanto nós estamos tomando o pé da gestão da Câmara e com certeza essa questão da fiscalização é muito importante. A gente precisa dar meios para que os próprios vereadores possam fiscalizar o município. E temos que prestar contas das nossas ações, também.

Há críticas, inclusive minhas, sobre privilégios e influência de servidores dentro da Câmara, incluindo suspeitas de favorecimento, desvios de função e até limitações técnicas que prejudicam a fiscalização. Como pretende lidar com isso?

Vou atuar como sempre atuei na gestão pública: com diálogo e acesso aos documentos.

Se houver irregularidades, vamos apurar e resolver.

Ainda estou entendendo a estrutura da Câmara, mas é evidente que precisamos fortalecer a capacidade de fiscalização, inclusive com apoio técnico — seja interno ou externo.

Também queremos valorizar os servidores que realmente trabalham e contribuem para o funcionamento da Câmara.

Reforço que vamos trabalhar para valorizar os servidores que prestam bons serviços e fazer com que a Câmara produza cada vez mais resultados para a população.

Pretende mudar os comissionados que ocupam cargos de chefia?

Ainda estamos analisando. Acabei de chegar. Por enquanto, está tudo como está. Nada muda neste momento. Depois da avaliação, pensamos no que pode ser melhorado ou modificado. Mas minha missão é pacificar o Legislativo e contribuir com a cidade. E quem tiver esse mesmo espírito está convidado, ou convocado, para nos ajudar.