'O legado da minha família é fazer tudo à luz do dia'

Vera Moquenco Figueiredo conta os bastidores da política, fala sobre o Jornal A Cidade e analisa a situação do jornalismo em Ribeirão

, atualizado

Compartilhar notícia

Nascida em 13 de janeiro de 1949 e criada no coração de Ribeirão Preto, na rua São Sebastião — onde funcionou, por décadas, o jornal A Cidade —, Vera Lúcia Moquenco de Figueiredo é personagem viva de uma cidade que se confunde com a própria história do jornalismo, da política e da vida pública local. Criada em meio a redações, bastidores do poder e rotinas de trabalho que começavam antes do amanhecer, ela iniciou a vida profissional aos sete anos e atravessou décadas em que imprensa, política e cidade caminharam lado a lado — sem glamour, mas com intensidade.

Formada em Letras pela Barão de Mauá e integrante da primeira turma de Jornalismo da Unaerp, Vera pertence a uma geração que aprendeu o ofício no chão da redação, no cheiro da tinta e na exaustão das madrugadas. Viveu por dentro o auge do jornal impresso em Ribeirão Preto, acompanhou a profissionalização das redações do interior paulista e testemunhou, de forma direta, a transformação do jornalismo em um ambiente cada vez mais pressionado pela velocidade, precarização e perda de memória. "Infelizmente, vejo o jornalismo impresso acabando", conta, com a voz visivelmente embargada.

Filha e neta de figuras profundamente ligadas à vida política e institucional da cidade — seu avô, Orestes Lopes de Camargo, foi vice-prefeito —, cresceu circulando entre lideranças, campanhas, reuniões e articulações, sem jamais confundir proximidade com submissão. Ao longo da vida, recusou convites para disputar cargos eletivos, optando por permanecer como observadora crítica — alguém que viu muito, ouviu mais ainda e guarda histórias que ajudam a entender não apenas o passado, mas também os vícios persistentes do presente.

Casada desde 1970 com o cirurgião-dentista Mozart de Figueiredo, mãe de dois filhos e avó de quatro netos, Vera fala com a serenidade de quem já viveu ciclos inteiros: da ascensão ao declínio do impresso, da política feita no aperto de mãos à política do espetáculo, do trabalho como identidade à aposentadoria como reaprendizado. Nesta entrevista, ela revisita memórias, faz balanços incômodos e lança um olhar crítico — e, ao mesmo tempo, afetivo — sobre o jornalismo, a política e Ribeirão Preto. "Talvez o maior legado que a gente possa deixar seja esse: fazer tudo à luz do dia", resume.

Como avalia o jornalismo feito pelo A Cidade?

Tivemos grandes redações e profissionais maravilhosos. Não vou citar nomes para não ficar desagradável, mas tivemos grandes jornalistas, grandes mesmo. Você talvez tenha participado da melhor redação do interior de São Paulo.

Olha que o Otávio Frias tentou, por duas vezes, comprar o jornal. Não conseguiu porque minha mãe não quis vender. E ele dizia: "A redação de vocês é a melhor que tem".

Eram cinco mil classificados. Nem a Tribuna de Santos batia a gente.

Trabalhava? Trabalhava. Mas havia compensação: uma única banca de jornal vendia, no domingo, 500 exemplares. E vender 500 jornais não é brincadeira.

Passados quase 20 anos, existe arrependimento na venda do A Cidade para o grupo EPTV, ocorrida em 2006/2007?

Infelizmente, não havia mais condição de tocar. Não que não estivéssemos ganhando dinheiro suficiente — as contas estavam zeradas. Isso eu nem posso falar muito, porque meu avô nunca teve cheque especial, que dirá cartão.

Nunca fizemos leasing, nunca pedimos dinheiro emprestado para comprar máquina alguma. Mas eu já estava mais velha. Minha mãe já tinha feito 80 anos. Então, não havia como tocar. Eram 54 motoqueiros… Por mais que a gente tentasse, era muito exaustivo. A gente começava às quatro da manhã e não tinha hora para acabar. Só quem esteve por dentro sabe contar.

E como vê o jornalismo hoje?

Infelizmente, vejo o jornalismo impresso acabando. Fico muito triste, porque a melhor coisa do mundo é sentir o cheiro da tinta, o cheiro do papel, sofrer para imprimir.

Seus avós dão nome a três bairros — Maria Casagrande Lopes e Jardim Amália, em homenagem à sua avó, e Orestes Lopes de Camargo, ao seu avô. Sua mãe dá nome a um dos maiores viadutos da cidade. Como é isso?

Eduardo, eu fiquei muito emocionada quando fui ao bairro Orestes Lopes de Camargo. Estava inaugurando e a escola ainda não tinha nome. Colocaram Orestes Lopes de Camargo e, até que o governador desse um nome definitivo à escola, continuou assim. Já o Maria Casagrande… na realidade, minha avó se chamava Maria Casagrande Lopes. Foi quando o Palocci inaugurou o bairro. Eu falei para ele: "Mas, Palocci, ninguém conhece minha avó como Maria Casagrande". O apelido dela, do tempo em que trabalhava no Matarazzo, era Amália. Ele respondeu: "Então vamos colocar Jardim Dona Amália". E acabou que ela ficou com dois bairros. Minha mãe ficou com a escola técnica, e a biblioteca da escola Orestes Lopes de Camargo leva o nome dela.

Considera que sua família deixa um legado?

O legado da minha família é a honestidade que meu avô e minha avó passaram. Minha avó sempre dizia: "Aqui dentro não entra nada no escuro. Tudo tem que ser à luz do dia". Talvez esse seja o legado que eu recebi: a honestidade.

Como foi lidar com a aposentadoria?

No início, a falta foi assombrosa. Afinal, comecei com sete anos, levantando às quatro da manhã, e fui até os 64 no jornal. Fez muita falta, mas, ao mesmo tempo, criei uma teoria para mim: aprendi a trabalhar e tive que aprender a ficar à toa. E eu aprendi.

A senhora cresceu em meio à política. Como foi isso?

De fato, venho de uma família em que, quando nasci, em 1949, meu avô já era presidente da Câmara de Ribeirão. Convivi com ministros, governadores, presidentes e vereadores. Fui criada nesse ambiente. Posso me considerar uma herdeira. Mas isso nunca me pesou. Primeiro, porque eu fazia tudo com prazer. E, segundo, porque eu nem sabia o quanto me fazia feliz acompanhar meu avô em comícios e reuniões. Fui secretária da Arena. Tudo o que você imaginar em termos de política, eu fiz.

Até que um dia ele me disse: "Vera, vou lançar você como vereadora".

Respondi: "Eu não vou". Ele disse: "Mas você está eleita, está na cara".

E eu falei: "Não". Se eu tivesse 18 anos, até encararia. Mas, com 23, depois de tudo o que vi e vivi, percebi que essa canoa não era para mim. Não entro mais nela. Sinto muito.

Outro dia soube que o Morandini comentou, naquele último encontro aqui em casa, que eu tinha um apelido: que eu era a bengala política do meu avô. Isso eu não sabia. Mas achei ótimo ter sido essa bengala. Eu não era autorizada a falar o que pensava, claro, mas era uma ponte entre os políticos que passavam por aqui e o governador.

Tenho saudade da Margarida, secretária do governador Paulo Maluf. Foram muitos anos e muita convivência.

Cite uma passagem política que tenha te marcado.

Eu ainda tenho testemunha ocular desse episódio. Talvez tenha sido o que mais me marcou.

Meu avô recebia muitos políticos. O governador Laudo Natel passava de manhã e perguntava: "Vera, vai ter mandioca frita?". Dizia que fazia o que precisava e voltava depois para comer. Isso acontecia uma vez por mês.

Agora, tem uma história que me marcou muito, mas não me peça para contar o nome. O Morandini também presenciou tudo.

Em uma determinada quarta-feira, apareceu uma pessoa muito influente e anunciou uma visita ao meu avô — alguém que já era presidente do Congresso Nacional.

Meu avô me disse: "Fulano vem às duas horas. Você vai dizer que eu não vou recebê-lo".

Perguntei como faria isso. Ele respondeu: "Diga que aqui em casa não entra ladrão".

Fui dar o recado. O homem chegou. Sentei no banco e disse: "Olha, o senhor me desculpe, houve um imprevisto. Meu avô mandou dizer que não vai recebê-lo. E que aqui nesta casa não entra ladrão".

O Morandini estava escondido, ouvindo. Saímos. O homem ficou uns dez minutos tentando se recompor e foi embora.

Nunca mais ouvi falar dele visitando a casa. Talvez tenha outro episódio, mas esse fica para a próxima.

Quanto à política de hoje, como analisa?

Fico um pouco decepcionada com aqueles que usam farda. No meu tempo, quando alguém usava farda, a gente encostava até na parede. Hoje fico triste porque eles não compram mais a briga. O resto você já sabe.

E, olha, não tenho nada contra o Ricardo Silva. Gosto muito do pai dele, da mãe, dona Clara. Acho que lutaram muito para criar os filhos.

Torço por Ribeirão. Seja quem for que esteja à frente, eu torço por Ribeirão.

Você é a madrinha do Jornal Ribeirão. Como encara isso?

Esse negócio de madrinha… vocês colocam um peso muito grande nas minhas costas. Um peso que, de 1949 até 2009, eu nunca senti.

Mas é bom inspirar um jornal — eu que vivi a vida toda na redação de um deles.