Excesso de chuvas preocupa e deve diminuir valor da safra

Centro-Sul terá que lidar com perda de açúcar por tonelada motivada pelo excesso de chuva fora de hora; umidade acima da média também favorece 'cigarrinha' e gera temor para 2027

, atualizado

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Safra de cana-de-açúcar na região: chuvas causam problemas para os produtores
Safra de cana-de-açúcar deve crescer 4,7% em relação ao ano de 2025 - Foto: Agência Brasil
Safra de cana-de-açúcar deve crescer 4,7% em relação ao ano de 2025 - Foto: Agência Brasil

A primavera chegou com chuva fora de hora e virou dor de cabeça no maior polo sucroenergético do interior paulista. Em setembro, Ribeirão Preto acumulou 100 milímetros de precipitação, volume 44% superior à média histórica para o mês. O resultado aparece no canavial: a cana perdeu açúcar, a colheita atrasou e o calendário das usinas da região teve de ser refeito.

O problema é fisiológico, segundo o engenheiro agrônomo e produtor rural Rodrigo Ortolan. Em outubro, a cana adulta atinge o pico de acúmulo de sacarose no colmo. "Com água em excesso e boa luminosidade, a planta entende que é hora de voltar a crescer e consome a energia estocada para produzir folha, colmo e raiz. O que chega à indústria é uma matéria-prima pobre em açúcar", informa.

"A chuva nessa época, fora de época, além de atrapalhar a colheita da safra e prolongar a nossa safra, traz mais água para dentro da indústria, com menos açúcar e também muita impureza", resume o diretor de usina Antônio Eduardo Tonielo.

QUEDA

A queda do ATR — Açúcar Total Recuperável, indicador que mede a quantidade de açúcar por tonelada disponível para virar açúcar ou etanol — atinge em cheio o bolso de quem planta. O pagamento da cana entregue às usinas é calculado com base no ATR por tonelada. Menos açúcar significa remuneração menor para o fornecedor, inclusive para o produtor independente que arrenda terra no entorno do parque industrial.

Para a indústria, o efeito é parecido e cumulativo: mais água e mais impureza na esteira significam menor rendimento por tonelada moída e custo operacional maior para produzir o mesmo volume.

Com o cenário, a meta inicial das usinas era encerrar a moagem no fim de novembro. O fim foi empurrado para o início de dezembro, esticando a safra em cerca de 15 dias.

Para não parar a fábrica, a saída encontrada é operar em rodízio de transporte entre áreas secas e áreas molhadas, aproveitando as janelas de campo que ainda permitem entrada de máquina sem destruir a soqueira.

Para 2027

A cana que não foi colhida não desaparece: ela engorda a safra seguinte. É a leitura de Ortolan. "É uma cana que já chega somando. Aí você tem mais cana para a safra que vem."

Nem tudo, porém, é ganho contábil. Colher com solo úmido provoca pisoteamento e dano à soqueira, o que compromete o vigor da cana que será cortada no ano que vem. Ao mesmo tempo, o excesso de umidade favorece a cigarrinha, praga que derruba a qualidade da matéria-prima e o aproveitamento industrial — um custo que só aparece na próxima temporada.

Para a economia da região, o efeito é em cadeia. Menos moagem significa menos frete, menos manutenção, menos turno nas fábricas e menos movimento no comércio das cidades que vivem da cana, num ano em que o setor já opera com margem apertada. O que se desenha é uma safra que não vai acabar quando deveria.