O elétrico nacional que o Brasil esqueceu
Quem vê o vai e vem dos carros elétricos silenciosos pelas nossas capitais hoje em dia nem imagina que, há mais de 50 anos, um brasileiro já tinha decifrado essa charada.
, atualizado
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Hoje, o mercado é inundado por marcas estrangeiras e tecnologia importada, mas a verdade é que o futuro da mobilidade já foi desenhado aqui dentro. Enquanto o mundo debate os rumos da transição energética, vale a pena olhar para o retrovisor e resgatar uma história de puro pioneirismo: a do Gurgel Itaipu E150.
O ano era 1974. O mundo sofria o baque da primeira grande crise global do petróleo, com o preço do combustível nas alturas e os governos batendo cabeça atrás de alternativas. Foi nesse cenário de incertezas que o engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, um homem que enxergava décadas à frente do seu tempo, colocou nas ruas o primeiro veículo elétrico da América Latina. O nome era uma homenagem direta à usina hidrelétrica que começava a ser construída na mesma época, símbolo de uma promessa de energia limpa e, acima de tudo, nossa.
Duas banquetas e uma tomada comum
O Itaipu era um carrinho focado exclusivamente no trânsito urbano. Com um visual quadradão, quase um trapézio sobre rodas, ele tinha carroceria de fibra de vidro e espaço para apenas duas pessoas. Parecia um veículo saído de um filme de ficção científica da época e chamava a atenção por onde passava. Olhando hoje, as especificações parecem modestas, mas para a década de 1970 elas eram um verdadeiro espanto técnico:
Autonomia: O compacto conseguia rodar entre 50 km e 60 km com uma única carga completa.
Velocidade: Chegava ao topo dos seus 60 km/h, o suficiente para os centros urbanos da época.
Recarga: Não precisava de carregadores ultra-rápidos; bastava plugar o carro em qualquer tomada comum de casa por cerca de 6 a 8 horas.
O grande calcanhar de Aquiles do projeto, contudo, estava guardado no assoalho. Naquela época, ninguém sequer sonhava com as baterias de íons de lítio que hoje alimentam nossos celulares e SUVs modernos. O Itaipu dependia de pesadas baterias de chumbo-ácido, as mesmas usadas para dar partida em carros convencionais. Essa escolha técnica era a única possível na época, mas cobrava um preço alto: o peso extra sacrificava o desempenho e o desgaste dos componentes era gigante, o que tornava o custo de produção proibitivo para o bolso do consumidor médio.
A genialidade que ficou pelo caminho
Por conta desses desafios de custo e tecnologia, o Itaipu E150 acabou não sendo vendido em massa, funcionando mais como um laboratório sobre rodas. Mas a Gurgel não jogou a toalha. Com o aprendizado acumulado nesse protótipo, a marca lançou em 1981 o Gurgel E400, um furgãozinho que conquistou o título real de primeiro veículo elétrico produzido em série no Brasil. Ele não foi para o público geral, mas operou bravamente em frotas comerciais e empresas estatais de telefonia e energia por vários anos.
A fábrica da Gurgel fechou as portas na década de 1990, engolida pela abertura do mercado nacional e pela falta de apoio governamental. Hoje, a história do Itaipu deixa uma lição incômoda e muito atual: o Brasil nunca teve falta de criatividade, engenharia de ponta ou coragem para inovar. O que sempre nos faltou foi o incentivo de longo prazo e o fôlego financeiro para não deixar nossas mentes mais brilhantes morrerem na praia. No fim das contas, o futuro bateu à nossa porta em 1974, mas nós simplesmente esquecemos de abrir. Para mais histórias como essa siga @autofocorp