Na primeira semana de atendimento, muitos ribeirinhos da região buscaram atendimento. Entre eles, uma criança que havia se ferido com o anzol de sua vara de pescar. Houve também um caso grave de desnutrição infantil, que contou com um grande esforço da equipe de enfermagem da unidade de Campina.
Aqui nós conseguimos fazer o que elas só conseguiriam na cidade ou então em uma vinda da UBS fluvial, que vem aqui duas vezes por ano devido à logística, contou o enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, atualmente trabalhando na unidade de Campina.
Segundo ele, trata-se de uma população que "vai muito pouco ao médico". "Só vai mesmo quando chama resgate ou então quando a UBS Fluvial passa por aqui, acrescentou o enfermeiro.
Alguns pacientes que estiveram aqui com a gente relataram casos de antes do resgate e da existência desse ponto. Teve um paciente que perdeu dois filhos devido uma picada de cobra. Ele ficou 12 horas esperando [por socorro] e, nessa época, ainda não tinha essa tecnologia que tem hoje como aparelho celular. Mas como naquela época não tinha nem o resgate e nem o ponto, esse paciente veio a óbito.
Agora, com esse atendimento primário mais próximo da população, a expectativa é que se diminuam em até 80% as chamadas para o resgate por lancha, estimou o enfermeiro Carlos. Vamos salvar muito mais vidas e vamos evitar também os resgates. Se eles vierem aqui, faz-se o atendimento e só vai para cidade se for um caso de emergência mesmo. Mas já vai sair daqui estabilizado.
Segundo Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), o projeto SUS na Floresta pretende não só oferecer novas estratégias para as populações ribeirinhas, como também contribuir para que elas permaneçam em seus territórios com a garantia de que estarão tendo acesso ao seu direito à saúde.
Se as pessoas começarem a decidir ir embora de seus territórios, isso vai ser catastrófico. Primeiro por que quem é que vai cuidar do que está aqui? E segundo: os centros urbanos não estão, em hipótese alguma, preparados para receber um êxodo rural. Você vai ter um boom de aumento em problemas sociais que já são latentes nos centros urbanos. Dentro das diversas Amazônias, a gente não pode esquecer que nós temos cidadãos brasileiros que precisam que as políticas cheguem. E se o governo, por um acaso, não está conseguindo interiorizar isso, é nossa obrigação apoiar.
Mais saúde
O atendimento nas duas novas estruturas em sua primeira semana de funcionamento foi muito elogiado pelos moradores. Esse ponto de saúde é muito importante para a vida dos comunitários porque a gente sofria muito com essa questão da logística de quando a pessoa adoece e precisava ir até a cidade para ser atendido. A UBS que passa nas comunidades não era suficiente para a gente ter um atendimento melhor na área da saúde", disse Maria das Neves, moradora da comunidade Novo Horizonte e vice-presidente da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc).
O colaborador do ICMBio, Raimundo Viana, concorda com ela. Vejo isso como um ponto muito positivo porque hoje a gente vai ter um atendimento no Médio Juruá que, há 20 ou 30 anos atrás, a gente nem sonhava que poderia existir, Com a instalação desses postos, a vida de quem mora aqui vai ter outro sentido na área da saúde. A logística da Amazônia é complexa. Mas em se tratando do Médio Juruá, é ainda mais complexo porque a gente está mais distante dos grandes centros. E aqui o transporte é por rabetinha, uma canoa com motorzinho. Hoje o município oferece um resgate, mas isso ainda não atende toda a demanda, porque a demanda é grande.
Segundo ele, com os pontos instalados em Bauana e em Campina, as distâncias para conseguir um atendimento em saúde serão bastante encurtadas. Em vez de de gastar 12 horas de onde eles estão para chegar na sede do município, eles vão gastar quatro horas, dependendo do local que eles estão, para esses pontos que foram instalados no Médio Juruá. Essa é uma vantagem muito importante, disse Raimundo.
Para Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS, há ainda muitos desafios a serem enfrentados para que se consiga garantir saúde à população ribeirinha. Um dos grandes desafios é o logístico e operacional: os custos de se estar aqui, de manter uma equipe de saúde aqui e que é responsabilidade da prefeitura. Também é desafiador captar recurso e conseguir convencer um parceiro [um financiador] de levar uma estrutura dessa para um lugar como esse. Muitas vezes ele quer investir em outras coisas e outras ações, mas isso aqui faz a diferença para quem está no território, disse ela.
Outro desafio, destacou ela, diz respeito à manutenção desses espaços. Infelizmente ainda tem uma prática no Brasil de que nem sempre o próximo gestor dá continuidade àquilo que o anterior está fazendo. Isso muitas vezes gera um retrocesso. No entanto, destaca Valcléia, o projeto SUS na Floresta já demonstra que é possível direcionar melhor os recursos e os atendimentos, contribuindo até mesmo para uma economia de gastos pela prefeitura.
Os moradores, no entanto, sabem que é preciso ir muito além.
É preciso implantar mais posto de saúde, tanto dentro da RDS quanto da Resex [Reserva Extrativista] do Médio Juruá. O que divide as duas unidades é somente o rio. Uma reserva de um lado, a outra reserva é do outro. Mas as pessoas são as mesmas, a dor das pessoas é a mesma. A dor de um é a dor do outro, falou Solivan.
*A repórter viajou a convite do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e da Fundação Amazônia Sustentável (FAS)