No dia em que nasceu, em janeiro de 1986, na cidade de São Paulo, o clima de celebração do primeiro filho foi substituído pela angústia e pela incerteza. Logo após o parto, os médicos sumiram com o bebê. Diante do desespero dos pais, uma psicóloga do hospital trouxe uma notícia devastadora, dita de forma brutal: O seu filho não veio, porque ele nasceu sem rosto.
Após horas, os pais de Thyago Cézar o receberam em seus braços, junto com a afirmação dos médicos de que ele jamais falaria ou se relacionaria.
A reviravolta começou graças à indicação de um amigo da família, cuja irmã trabalhava próximo ao Centrinho. Com apenas oito dias de vida, Thyago foi colocado no carro por seus pais para buscar tratamento especializado.
Bauru nos acolheu imediatamente. E, quando meus pais viram aquela quantidade enorme de crianças iguais a mim, eles se acalmaram e perceberam que o melhor caminho era morarmos em Bauru para facilitar o tratamento, contou Thyago, que atualmente tem 40 anos e é advogado.
O tratamento de Thyago no Centrinho durou exatos 25 anos e três meses. Ao todo, foram 10 cirurgias e 12 anos de uso de aparelho ortodôntico, além de idas intermitentes ao dentista e acompanhamento com fonoaudiólogos, psicólogos e terapeutas ocupacionais.
Embora a cirurgia primária para fechar o lábio ocorra geralmente aos três meses e a do céu da boca, por volta de um ano, Thyago enfatizou que o processo está longe de ser simples.
As pessoas acham que é só costurar a boquinha, mas é muito mais do que isso. É um tratamento que vai durar praticamente até a vida adulta dessa pessoa. E tem o preconceito, os apelidos na escola. Para mim, toda a questão estética era prejudicada. Mas eu tive a sorte de ter pais que eram melhores do que quaisquer psicólogos e me incentivaram a enfrentar os desafios de cabeça erguida, disse.
Atuação
Thyago formou-se em Direito e, em 2010, recebeu alta do tratamento. Em 2015, foi convidado pelo serviço social do Centrinho para participar de uma audiência pública com o objetivo de criar o Dia Municipal da Conscientização da Fissura Labiopalatina.
Sua atuação chamou a atenção e, no ano seguinte, ele foi convidado a se juntar à Rede Profis Brasil (Rede Nacional de Associações de Pais e Pessoas com Fissura Labiopalatina), uma organização sem fins lucrativos que integra associações de apoio a pessoas com fissura labiopalatina e suas famílias em todo o Brasil.
A rede promove o acesso à reabilitação multidisciplinar, ao acolhimento e à defesa de direitos.
Com base em sua formação jurídica e em sua vivência, Thyago passou a lutar para garantir direitos em âmbito nacional. Ele passou a sugerir projetos de lei para equiparar as pessoas com fissura labiopalatina às pessoas com deficiência.
A proposta já foi apresentada em 20 estados brasileiros. Em dez foi aprovada e em nove está em tramitação. No estado de São Paulo, o projeto foi vetado pelo governador Tarcísio de Freitas, após ter sido aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa. O mesmo projeto está em tramitação na Câmara dos Deputados.
Ao olhar para sua trajetória, Thyago recusa o rótulo de vitorioso.
Eu diria que sou alguém que teve acesso. Eu tive o privilégio de poder morar perto de um hospital de referência mundial, de ter tido condições financeiras para o pós-operatório e de ter tido a oportunidade de estudar. Muitas famílias enfrentam barreiras geográficas e financeiras intransponíveis para acompanhar os filhos nas consultas semanais.
Thyago destaca pontos cruciais como a conscientização, ou seja, informar as famílias sobre a existência do tratamento, evitando que crianças cresçam sem realizar as cirurgias primárias por desconhecimento dos pais, e o acesso efetivo com a garantia de transporte e alimentação para que os pacientes consigam chegar aos centros de reabilitação.
Também é fundamental a capacitação profissional, instruir profissionais de maternidades e unidades básicas de saúde para que saibam identificar a fissura e encaminhem os bebês para os locais corretos imediatamente. E também que o poder público injete recursos na reabilitação, pois, embora a fissura não cause a morte física direta, a falta de tratamento mata a alma e invisibiliza o indivíduo, impedindo-o de desenvolver todo o seu potencial, finalizou Thyago.