Troca de farpas coloca Câmara em modo de autodestruição
Guerra entre Isaac e Lincoln inaugura era de denúncias entre parlamentares; decano vê 'autofagocitação' em disputas públicas
, atualizado
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A Câmara de Ribeirão Preto atravessa uma das fases mais turbulentas desde a redemocratização. Trocas de farpas sempre existiram, mas nunca a Casa havia sido palco de tantas denúncias cruzadas, boletins de ocorrência e representações ao Ministério Público em tão pouco tempo. E, no que depender dos atores dessa trama, não deve melhorar rapidamente.
O que antes era disputa política hoje ganhou contornos de desagregação institucional, com vereadores acusando uns aos outros em público e nos bastidores.O caso mais emblemático foi a cassação de Lincoln Fernandes (PL), aprovada por unanimidade pela Câmara por suposta prática de rachadinha. O processo foi embasado em depoimentos de ex-assessores e movimentações bancárias.
Lincoln já havia sido alvo de denúncia e se tornou o centro da crise que espalhou estilhaços por todo o Legislativo.A partir daí, o vereador cassado passou a reagir com uma série de vídeos e acusações públicas. Em um deles, mirou o ex-presidente da Casa Isaac Antunes (PL), a quem atribuiu perseguição política e práticas ilegais. Em outro, acusou André Rodini (Novo) de estacionar em vaga de idoso na Câmara e afirmou que ele teria sido flagrado dirigindo embriagado.
CONFRONTO
As acusações ampliaram o clima de confronto interno e ajudaram a transformar a crise em uma guerra aberta entre pares.Antes disso, Jean Corauci (PSD) também já havia entrado na mira do debate político após a circulação de documentos internos sobre multa aplicada a veículo oficial durante recesso parlamentar, em viagem particular. O próprio Lincoln também foi alvo de questionamentos semelhantes depois de ser multado de madrugada na altura de Jaboticabal.
O fogo amigo se espalhou ainda por nomes como Maurício Gasparini (UP) e Vila Abranches (PSDB), aprofundando a sensação de que a Câmara virou palco de uma autofagia política sem precedentes.Nos bastidores, a avaliação é de que a exposição pública de acusações, gravações e denúncias forma um quadro novo para Ribeirão. "Nunca vi uma Câmara que se autofogocita em tal proporção", resumiu, sob anonimato, um veterano da política local.
PACIFICAÇÃO
O presidente da Casa, Daniel Gobbi (PP), tem pregado pacificação e diz que a prioridade é reconstruir a unidade do Legislativo sem abandonar a apuração das denúncias.
Já o cientista político Luiz Rufino vê no conflito um sintoma mais profundo: a revelação de práticas pouco republicanas e a novidade de ver parlamentares usando denúncias para atingir adversários.
"E isso deve continuar, ainda mais com as denúncias que viraram inquéritos na Polícia Civil e MP. Aguardem as cenas dos próximos capítulos".