Em guerra com presidente, Lincoln tem processo de cassação aberto

Ex-líder do governo foi acusado por rachadinha; em vídeo, ex-assessores confessam ter devolvido dinheiro a parlamentar

, atualizado

Compartilhar notícia

A Câmara novamente está no olho do furacão com a denúncia, que se tornou pública na tarde de domingo (22), e que aponta o vereador Lincoln Fernandes (PL), líder do governo na Câmara, como organizador de um suposto esquema de rachadinha — prática em que parte do salário de assessores seria devolvida ao parlamentar, o que é considerado ilegal e crime contra a administração pública. Houve instauração de processo que pode levar à cassação do mandato do vereador nesta segunda (25)

A votação que instaurou o processo foi significava. Foram 20 votos a favor e nenhum contra - Lincoln se absteve e o presidente Isaac Antunes (PL) não votou. O dano político da denúncia, entretanto, vai além da goleada e envolve diretamente o presidente da Casa.

A denúncia surge em meio a um clima já tenso dentro da Câmara, revelado pelo Jornal Ribeirão há três semanas. Uma verdadeira guerra fria política se instalou entre os dois parlamentares, com direito à demissão de Lincoln e de sua equipe da rádio Jovem Pan News — emissora associada à família de Isaac — e à troca de chaves do prédio sem aviso prévio.

Desde então, assessores de ambos os lados teriam sido deslocados para levantar material político para possível uso futuro.

Na sexta-feira (20), uma série de reuniões, com representantes de ambos os lados, tentou selar um acordo, o que não foi possível. Em um desses encontros, organizados pelo vereador Eduardo Martinez (MDB), ficou selada a impossibilidade de composição.

Depois da reunião, a reportagem falou com assessores políticos ligados aos dois lados, e todos demonstraram receio de uma "guerra atômica" entre os parlamentares. No domingo, veio a primeira bomba: a divulgação de uma série de vídeos protagonizados por ex-assessores de Fernandes que indicariam a prática de rachadinha.

HAGARA

Coube a Hagara do Pão de Queijo, influenciador com grande base de seguidores nas redes sociais, a divulgação da denúncia e dos vídeos.

"Fiquei sabendo do racha entre os dois, inclusive das ameaças de um contra o outro, e comecei a investigar. Tive acesso aos vídeos e aos extratos, verifiquei se as provas são verdadeiras, passei para o meu jurídico e decidimos dar andamento à denúncia", afirmou Hagara. "Encaminhamos as provas ao Gaeco, ao Ministério Público e à Câmara, onde as denúncias foram protocoladas, fazendo também o pedido de cassação", disse.

O ex-suplente de vereador — Hágara era filiado ao PL antes de anunciar sua entrada no Avante — informou ainda que não recebeu o material de ninguém ligado a Antunes. "Não posso revelar, neste momento, a origem dos vídeos, mas não foi ninguém do Isaac Antunes", afirmou.

BASTIDORES

Nos bastidores, entretanto, a classe política não tem dúvidas de que a guerra entre os dois parlamentares tem relação direta com os fatos. "Lincoln brincou com fogo ao comprar a briga que comprou", afirmou um vereador da base aliada ao governo, que falou sob condição de anonimato.

Não foi caso isolado. A reportagem conversou com dez dos 22 vereadores após a denúncia, e todos demonstraram ceticismo quanto às chances de Lincoln não ter o mandato cassado. "Já é um cadáver político", disse um deles.

Ao contrário do esperado no cenário político, não houve, até o momento, nenhuma "retaliação" por parte de Fernandes, que segue mantendo postura discreta — ao contrário do ocorrido antes da denúncia.