O que não muda na Medicina
O Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, sempre me faz olhar um pouco para a trajetória que escolhi. Eu me formei em Medicina em 1983. São 43 anos de profissão e, quando comparo aquele início com a Medicina de hoje, muita coisa mudou.
, atualizado
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Mudaram os exames, os tratamentos, os medicamentos, o acesso à informação e a velocidade com que o conhecimento circula. Mais recentemente, a inteligência artificial passou a fazer parte dessa transformação e já começa a ocupar espaço também na rotina médica.
Vejo esse movimento com naturalidade. A Medicina sempre avançou ao lado da ciência e da tecnologia. Quanto melhores forem as ferramentas disponíveis, maiores podem ser as possibilidades de diagnóstico, prevenção e tratamento.Mas algumas coisas não mudam.
Escolhi a Pediatria porque sempre gostei muito de crianças. Depois, a Infectologia me conquistou pela amplitude. As doenças infecciosas atingem milhões de pessoas todos os anos, muitas podem ser tratadas e tantas outras, prevenidas. É uma área que exige conhecimento, atualização constante e muita atenção ao paciente.
Ao longo da carreira, aprendi que Medicina não se resume a reconhecer sintomas, interpretar exames ou definir uma conduta. Existe uma pessoa diante de nós. Muitas vezes, existe também uma família tentando entender o que está acontecendo, com dúvidas, receios e expectativas que não aparecem no prontuário.
Também aprendi que nem sempre a melhor consulta é aquela em que temos uma resposta imediata. Às vezes, o mais importante é reconhecer uma dúvida, buscar outros conhecimentos e acompanhar a evolução de cada caso. A experiência nos ensina que a segurança de uma decisão passa pela humildade de continuar aprendendo.
É nesse espaço que a presença do médico continua sendo essencial.
A tecnologia pode ajudar a reunir informações, apontar possibilidades e organizar dados. Cabe ao médico interpretar tudo isso dentro de um contexto que é sempre individual. Ouvir, explicar, perceber aquilo que nem sempre é dito e construir confiança continuam fazendo parte do cuidado.
Em 2022, minha relação com a Medicina ganhou uma nova dimensão quando passei a atuar também como professora. Descobri na formação de novos médicos uma paixão que hoje me completa profissionalmente. Acompanhar os estudantes, compartilhar o que aprendi ao longo da carreira e perceber que ensinar também nos faz continuar aprendendo é uma experiência muito gratificante.
Os médicos que estão sendo formados agora exercerão a profissão em um ambiente muito mais tecnológico do que aquele que encontrei quando saí da faculdade. Isso é positivo. Eles terão ferramentas extraordinárias à disposição, mas precisarão preservar algo que nenhuma inovação torna menos importante: a Medicina é uma profissão construída sobre conhecimento, responsabilidade e relação humana.
Neste Dia do Médico, depois de 43 anos de profissão, continuo dizendo com a mesma convicção que amo ser médica. E hoje posso acrescentar que amo também formar médicos.Quanto mais a tecnologia amplia as possibilidades da Medicina, mais evidente fica aquilo que permanece essencial: saber cuidar de pessoas.
*médica infectologista, pediatra e professora de Medicina
do IDOMED (Instituto de Educação Médica)