O ramo de Ouro
Na Itália antiga, à beira do lago de Nemi, erguia-se um bosque sagrado consagrado a Diana, a deusa romana da caça, da lua e dos bosques, protetora das mulheres e dos animais selvagens.
, atualizado
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No centro, uma árvore. E diante dela rondava, dia e noite, um homem ao mesmo tempo rei e sacerdote: o Rei da Floresta, o marido terreno da deusa. Andava com a espada desembainhada, espiando as sombras. Não dormia em paz. Conhecia a própria sentença.
Ele não fora eleito. Fora um escravo fugitivo que entrara no bosque, quebrara um galho da árvore sagrada e matara o rei em combate. Tal era a lei do santuário, apenas dois passos. Primeiro, o ramo: quem o colhia ganhava o direito de enfrentar o rei. Depois, o combate: vencendo, matava o sacerdote e ocupava o trono. E passava a rondar a árvore com o medo do derrotado.
Frazer, o escocês que passou a vida colecionando mitos até escrever o livro que dá nome a estas linhas, foi quem viu a ironia: o escravo matava o rei para ser livre e, no instante em que sentava no trono, descobria que trocara as correntes da escravidão pelas correntes da coroa. Ganhava a liberdade, perdia o sono. Conquistava, não a vida, mas um cativeiro mais dourado, mais alto, mais solitário.
O ramo de ouro, porém, não era um galho qualquer. Era o ramo da própria árvore sagrada, o mesmo que Eneias precisou colher para descer vivo ao mundo dos mortos: o passaporte para o outro lado. Quebrá-lo era quebrar a proteção do rei e anunciar à natureza que chegara a hora da troca.
Por que a troca? Para os povos antigos, o rei era a encarnação viva da natureza. Se envelhecesse, a terra envelhecia com ele: as plantações secariam, o gado morreria, a primavera não voltaria. Por isso o matavam ainda no vigor, para que a alma passasse inteira a um sucessor jovem. O rei não morria por castigo. Morria para a fertilidade. A morte dele era a vida dos outros.
Agora vejam o Brasil. No domingo, o país foi ao bosque assistir ao rito. Sobraram dois diante da árvore: o rei velho, sendo imolado, e o desafiante com o ramo na mão, jurando que lhe basta um mandato. Cada um promete a primavera. Os dois mentem, como manda o rito. O rei mente quando se diz eterno. O desafiante mente quando se diz diferente.
O povo, porém, não sabe o que o rito esconde. Acredita que escolhe um rei. Escolhe apenas quem será sacrificado. Porque o poder não é o rei. O poder é o trono. O cargo passa de mão em mão; o apetite fica. O vencedor de 25 de outubro não herda um cargo, herda o apetite. Apetite não se elege, não se empossa, não se aposenta.
O pior: aqui o sacrifício não renova nada. No mito, o rei morria e a terra florescia. No Brasil, o rei morre e o país continua o mesmo. O sangue corre, o rito se cumpre, e o apetite, indiferente, muda apenas de boca. A mesa é a mesma. Muda o comensal.
O vencedor vai descobrir, no primeiro jantar, que trocou as correntes da campanha pelas correntes do trono. Que virou Rei da Floresta e já dorme de olho aberto, porque no bosque já espera outro fugitivo com o ramo na mão. Ele quebrou o ramo da árvore, venceu o combate. Agora é ele a árvore que alguém espreita.
O povo acredita que escolhe o rei. O povo escolhe o sacrificado. E, no fundo do bosque, sem pressa, um novo foragido aponta para a árvore e pergunta onde fica o ramo de ouro. O Brasil espera a primavera. O rito promete. A primavera não vem.
*cientista político e professor