Os cinco milhões que não querem ninguém

Há um dado que os senhores das pesquisas não enxergam. E o povo das esquinas, das bancas e dos botequins lhes diz: o Brasil não está dividido entre dois homens. Está dividido entre dois ódios. E isso é uma diferença de abismo.

, atualizado

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Luiz Rufino, cientista político e professor
Luiz Rufino, cientista político e professor - Foto: Divulgação
Luiz Rufino, cientista político e professor - Foto: Divulgação

Lula tem quarenta e um por cento. Flávio tem trinta e seis. E o que dizem as médias? Que o favorito é o primeiro. Tolice. Favorito é aquele que não tem o que temer. E o favorito desta eleição teme. Treme. Porque sabe, no fundo, que não é amado. É apenas o menos odiado.

Ah, a eleição dos extremos! O centro morreu. Caiado, Zema, Renan: três fantasmas que passeiam pelas pesquisas como quem não existe. Porque o eleitor, nessa hora trágica, não procura um salvador. Procura um inimigo menor. Vota com o nariz tampado, movido pelo bolso que aperta e pelo escândalo que fede. Vota contra, nunca a favor.

E aqui está o óbvio ululante. Dizem que o povo já escolheu o seu salvador. Engano. Setenta por cento escolheram, sim, mas contra. O eleitor de Flávio odeia Lula. O eleitor de Lula odeia Flávio. Cada um odeia apenas um, e esse um bastou. Não houve escolha: havia um só ódio, e ele decidiu. O voto não é um abraço. É um murro.

Mas atenção, senhores: os que odeiam os dois são outros. São cinco a seis milhões de almas que rejeitam os dois lados. Que ainda não encontraram o seu ódio e, por isso, adiam. Eles é que vivem a agonia do menos pior. Não escolhem o melhor dos dois, escolhem o ódio que lhes parece menos letal. O menos pior não é virtude de ninguém. É o tamanho da desgraça que cada um aceita suportar.

Porque é assim, e ninguém me tira isso da cabeça: o brasileiro não é um trágico, mas está diante de uma tragédia. E a tragédia tem um nome antigo: o temor mal usado. O governante que cruza a linha, que confisca o patrimônio e a dignidade dos seus, não colhe medo, colhe ódio. Ser temido é seguro, mas ser odiado é fatal. E o ódio não descansa: gera o revanchismo, que um dia cobra tudo.

O caso Lulinha. O caso Dark Horse. Os sessenta e um milhões de reais. Cada um carrega sua bomba no bolso, esperando que a do outro exploda primeiro. E o eleitor assiste a esse duelo de dinamites. Porque sabe que o que decide não é a técnica, nem a tática, nem a estatística: é o imponderável. Aquilo que nenhuma pesquisa previu e que chega no último segundo para virar o jogo. O jogo não se ganha no esperado: ganha-se no que ninguém viu chegar.

Eis o que ninguém ousa dizer: esta eleição não será vencida por ninguém. Será perdida por alguém. O vencedor será aquele que errar menos, que sangrar menos. O Brasil não elegerá um presidente. O Brasil absolverá um réu.

E os cinco a seis milhões de indecisos, pobres-diabos que rejeitam os dois, serão os juízes de um tribunal sem piedade. Eles não votarão em ninguém. Eles condenarão alguém. E quando a urna se fechar, no dia vinte e cinco de outubro, o país acordará não com um vencedor, mas com um sobrevivente.

*professor e cientista político