Emagrecimento vai além das 'canetinhas'
Você realmente precisa de canetas emagrecedoras para emagrecer?
, atualizado
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As "canetas emagrecedoras" viralizaram nas redes sociais com promessas de menos fome e perda rápida de peso. São medicamentos injetáveis, como os análogos do GLP-1, capazes de atuar na regulação do apetite e da saciedade. Em casos de obesidade e outras condições clínicas, quando corretamente indicadas e acompanhadas por profissionais de saúde, podem ser importantes aliadas. Ainda assim, nenhum medicamento substitui os fatores que sustentam a redução de peso ao longo do tempo: alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e mudanças consistentes no estilo de vida.
A ciência mostra que uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, com frutas, verduras, legumes, grãos integrais, leguminosas e fontes adequadas de proteína, favorece maior saciedade e melhor controle da ingestão alimentar. Na prática, pequenas substituições realizadas de maneira contínua costumam ser mais relevantes do que estratégias muito restritivas e difíceis de manter. Trocar bebidas açucaradas por água, aumentar o consumo de fibras, distribuir melhor as proteínas ao longo do dia e reduzir a presença de ultraprocessados são exemplos de medidas simples que ajudam a construir uma rotina alimentar mais saudável.
O emagrecimento também não depende apenas do que se coloca no prato. A prática regular de atividade física contribui para preservar massa muscular durante a perda de peso e melhora diferentes parâmetros metabólicos. Sono insuficiente, por outro lado, pode interferir nos mecanismos relacionados à fome e à saciedade, enquanto estresse persistente tende a dificultar escolhas alimentares mais conscientes. Por isso, olhar exclusivamente para as calorias ou para o número indicado pela balança é reduzir um processo que envolve comportamento, metabolismo e saúde de maneira muito mais ampla.
Quando existe indicação para o uso das canetas, a medicação deve integrar esse conjunto de cuidados, e não assumir o papel de protagonista. O acompanhamento nutricional permite adequar a alimentação à redução do apetite provocada pelo tratamento, garantindo consumo suficiente de proteínas, vitaminas, minerais e fibras. Esse cuidado ganha ainda mais importância porque comer menos não significa necessariamente comer melhor. Uma dieta muito reduzida e nutricionalmente inadequada pode favorecer perda de massa muscular e comprometer a qualidade do emagrecimento.
Outro aspecto importante é compreender que o tratamento não termina quando o medicamento é suspenso. Se os hábitos anteriores permanecem inalterados, existe possibilidade de recuperação do peso perdido. A construção de uma rotina possível de ser mantida no longo prazo ajuda justamente a diminuir essa dependência de soluções temporárias. O objetivo não deveria ser apenas emagrecer rapidamente, mas alcançar uma composição corporal e um estado de saúde que possam ser sustentados com qualidade de vida.
Antes de procurar uma solução medicamentosa, portanto, vale observar como estão as bases: há vegetais e fontes de proteína nas principais refeições? Existe atividade física na rotina? O sono recebe a atenção necessária? A alimentação responde à fome ou também ao estresse, à ansiedade e à falta de organização? Essas respostas ajudam a identificar quais mudanças precisam acontecer, com ou sem medicação.
As canetas representam um avanço importante no tratamento da obesidade, mas não transformam o emagrecimento em um processo automático. Quando indicadas, devem fazer parte de uma estratégia individualizada e multiprofissional. Para quem precisa perder peso, o caminho mais consistente continua sendo aquele que combina ciência, acompanhamento adequado e hábitos que possam permanecer depois que qualquer tratamento terminar.
*nutricionista, é coordenadora do curso de Nutrição da Estácio