Entre o 'farmar aura' e o pertencimento

Se você convive com adolescentes ou abriu qualquer rede social, já ouviu dizer que determinada pessoa "farmou aura"

, atualizado

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Fábio Sardinha, professor e sindicalista em Ribeirão Preto
Fábio Sardinha, professor e sindicalista em Ribeirão Preto - Foto: Divulgação
Fábio Sardinha, professor e sindicalista em Ribeirão Preto - Foto: Divulgação

A expressão parece estranha para quem nasceu antes de a internet dominar nossas vidas, mas já faz parte do vocabulário cotidiano dos jovens. A primeira reação de muitos, porém, é o espanto. A segunda costuma ser a crítica. Foi assim com a geração que falava "da hora", com os skatistas, os punks, emos, fãs de Pokémon, do Orkut, do MSN e tantas outras tribos juvenis. Cada geração cria seus próprios códigos e quase sempre é julgada pela anterior.Na minha infância, a diversão era jogar bets na rua, brincar de pique-esconde, subir em árvores ou tocar campainhas e sair correndo. Hoje, os encontros continuam existindo, mas dentro dos jogos eletrônicos, das plataformas digitais e redes sociais.

A palavra "farmar" nasceu nos games. Em inglês, "to farm" significa cultivar. Nos jogos, passou a significar acumular recursos, ganhar experiência e reconhecimento. Já "aura" pertence a outro universo: representa a imagem, o prestígio, o carisma. Quando um adolescente diz que alguém "farmou aura", está afirmando que aquela pessoa conquistou respeito, admiração ou status dentro do grupo.

Como educador, vejo esse fenômeno com curiosidade, e não com preconceito. Afinal, a linguagem nunca é neutra.O filósofo russo Mikhail Bakhtin afirmava que toda palavra nasce em um contexto social e carrega as marcas daqueles que a utilizam. Paulo Freire também nos ensinou que a palavra é uma forma de ler e transformar o mundo. Se as palavras mudam, é porque a sociedade também está mudando. Os jovens não estão apenas inventando uma moda passageira. Estão criando novos códigos de pertencimento.

Aliás, isso acompanha a humanidade desde muito antes da internet. Durante uma viagem recente a São Tomé das Letras, ao visitar uma gruta com pinturas rupestres, fiquei pensando que nossos ancestrais também buscavam formas de comunicar experiências, valores e identidades. Só mudaram as ferramentas: cavernas, os livros. Agora, as telas.

O desafio começa quando percebemos que essas mesmas plataformas, capazes de aproximar pessoas, também moldam comportamentos, hábitos e formas de pensar. É impossível discutir "farmar aura" sem discutir algoritmos, inteligência artificial, economia da atenção.

As maiores empresas de tecnologia do mundo investem bilhões para disputar aquilo que há de mais valioso hoje: nosso tempo. Não por acaso, diversos países passaram a rever a relação entre crianças, adolescentes e telas. Enquanto isso, no Brasil, ainda tratamos esse debate de maneira superficial. Proibimos celulares em sala de aula, mas pouco discutimos a educação digital. Ao mesmo tempo, ampliamos o uso intensivo de plataformas educacionais sem que existam evidências consistentes de que apenas aumentar o tempo diante das telas resulte, por si só, em melhoria da aprendizagem.

A tecnologia pode ser uma ferramenta extraordinária. O problema surge quando ela deixa de servir às pessoas e passa a definir como as pessoas vivem. Nenhuma inteligência artificial substituirá aquilo que faz da educação um encontro verdadeiramente humano: o diálogo, o afeto, a convivência, o conflito, a escuta e a construção coletiva do conhecimento.

Talvez o verdadeiro desafio da nossa geração não seja impedir que os jovens "farmem aura", mas garantir que eles também cultivem empatia. Leitura. Pensamento crítico. E relações humanas que nenhuma plataforma conseguirá reproduzir. Porque, no fim das contas, aquilo que realmente vale a pena cultivar nunca foi apenas uma boa imagem diante da tela.Sempre foi a capacidade de viver plenamente fora dela.

*professor, é dirigente sindical e suplente de vereador pelo PT