Depois da tempestade, ficam as lições

O forte vendaval que atingiu Ribeirão Preto deixou marcas profundas na cidade.

, atualizado

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Maurílio Biagi
Maurílio Biagi - Foto: Maurilio Biagi
Maurílio Biagi - Foto: Maurilio Biagi

O forte vendaval que atingiu Ribeirão Preto deixou marcas profundas na cidade. Tivemos vítima fatal, árvores centenárias tombaram, escolas e unidades de saúde foram afetadas, bairros ficaram sem energia e milhares de famílias tiveram suas rotinas interrompidas por evento climático de grandes proporções.

Diante da força da natureza, não há como evitar todos os danos. O que diferencia uma cidade é a forma como reage. E Ribeirão Preto deu uma demonstração de capacidade de mobilização e de união.

É justo reconhecermos a condução do gabinete de crise pelo prefeito Ricardo Silva, que coordenou a atuação das diversas secretarias e dos órgãos envolvidos na resposta à emergência. Da mesma forma, merecem reconhecimento os servidores municipais, a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros, as forças de segurança e todos os profissionais que permaneceram nas ruas, muitas vezes em condições difíceis, para restabelecer a normalidade.

Vale fazermos também reconhecimento especial à CPFL. A dimensão dos danos na rede elétrica exigiu operação complexa, conduzida com rapidez e dedicação. Suas equipes trabalharam ininterruptamente, atravessando dias e madrugadas, para restabelecer o fornecimento de energia e reduzir os impactos para os moradores.

Outro aspecto que merece destaque foi a extraordinária solidariedade da sociedade ribeirão-pretana. Empresas, entidades, voluntários e cidadãos comuns se organizaram espontaneamente para oferecer equipamentos, alimentação, estrutura, mão de obra e apoio às famílias atingidas. Muitas dessas iniciativas nasceram sem qualquer coordenação oficial, movidas pelo compromisso com o próximo. Por onde andamos, encontramos alguma ação, ponto de coleta de doação, que somados, são grandiosos. Esse espírito comunitário é um dos maiores patrimônios de Ribeirão.

Dentro das nossas possibilidades, procuramos contribuir desde os primeiros momentos. Além de apoiarmos iniciativas organizadas pela sociedade civil, fizemos, com ajuda de amigos de São Paulo, uma ponte para aproximar o município do Movimento União BR, organização apartidária especializada na resposta a desastres climáticos e humanitários, com ampla experiência em operações de emergência em todo o Brasil. Ficamos satisfeitos em ver que esse contato, que será muito útil, foi prontamente acolhido pela Secretaria Municipal da Saúde e que a entidade já iniciou sua atuação na cidade, somando esforços para acelerar a recuperação dos serviços essenciais e ampliar o apoio às famílias afetadas.

Também merece registro a pronta manifestação de apoio dos governos estadual e federal. Em momentos de calamidade, a presença das diferentes esferas de governo, colocando estrutura, recursos e apoio técnico à disposição do município, demonstra que o interesse público deve estar acima de qualquer divergência. As visitas do vice-presidente Geraldo Alckmin e do governador Tarcísio de Freitas simbolizam isso: quando uma cidade enfrenta uma emergência dessa dimensão, não existem adversários, existem responsabilidades compartilhadas. Vejam só, até a tradicional rivalidade entre botafoguenses e comercialinos ficou em segundo plano. Todos, por alguns dias, passaram a vestir a mesma camisa: a de Ribeirão Preto.

Ao mesmo tempo, não podemos deixar de contribuir com uma reflexão. Embora muitas instituições tenham dado um belo exemplo de compromisso com Ribeirão, outras, que tradicionalmente ocupam espaço nas discussões sobre os rumos da cidade, acabaram participando de forma tímida desse grande movimento de solidariedade. Essa observação não tem o intuito de estabelecer comparações, mas acreditamos que momentos extraordinários exigem atitudes igualmente extraordinárias, que às vezes não surgem prontamente. Toda contribuição conta, portanto ainda é tempo de ampliarem as participações. Há muito a fazer.

Os eventos climáticos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes. Isso exige investimentos em prevenção, planejamento e infraestrutura, mas também reforça a necessidade de fortalecer uma cultura permanente de cooperação entre poder público, iniciativa privada, terceiro setor e sociedade civil.

Ribeirão Preto sempre cresceu quando seus diferentes setores caminharam juntos. Foi assim em diversos momentos da nossa história e deve continuar sendo diante dos desafios do futuro.

A tempestade deixará prejuízos materiais que serão superados com o tempo. Esperamos que deixe também um legado: a certeza de que nenhuma ideologia, nenhuma instituição e nenhum interesse particular podem ser maiores do que a responsabilidade de cuidar da cidade e das pessoas que nela vivem. Quando todos se unem em torno de um objetivo comum, quem vence é Ribeirão Preto;

* é empresário