O Narciso com mandato
Em 1919, numa Munique derrotada e em convulsão, um homem chamado Max Weber subiu num palco e disse algo que a plateia atônita não queria ouvir. Que a vaidade é o inimigo mortal da política. Não a corrupção. Não a ignorância. A vaidade. Essa coisa trivial, cotidiana, demasiado humana.
, atualizado
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Mas Weber foi preciso. Não falava da vaidade do homem comum, que quer o carro melhor, a casa maior, o olhar dos vizinhos. Essa é inocente. Fere apenas o bolso e o orgulho. A vaidade do político é outra. É a vaidade de quem tem nas mãos o destino de gente que nunca viu o rosto dele. O político não quer mostrar-se. Quer decidir. Quer o poder de comandar vidas. E quando esse desejo se separa de qualquer causa, a vaidade deixa de ser fraqueza e vira violência. O Narciso comum afoga-se na própria imagem. O Narciso com mandato afoga os outros.
Weber descreveu com horror o político sem causa, só o gosto de mandar. Aquele que vive da política, não para ela.
Pois venham a Ribeirão Preto.
Aqui, o Narciso tem gabinete. Tem frota. Tem assessores fantasma que não aparecem para trabalhar, mas aparecem na folha. Tem um regimento generoso que não pergunta, não vê, não pune, até que o incêndio já tenha consumido o prédio.
Doze vereadores sob investigação numa só legislatura. Nove pedidos de cassação. Uma cassação definitiva por desvio de salários. Um afastamento por embriaguez ao volante e fraude processual. Isso não é crise pontual. É calendário. A Câmara não vive uma fase ruim. Vive sua natureza.
A Operação Sevandija deveria ter sido o aviso. Mais de R$ 200 milhões desviados. Uma cidade traumatizada. Mas três legislaturas mostram o que a narrativa confortável esconde: Sevandija não foi exceção. Foi prólogo. Os nomes mudaram. As caras mudaram. A cultura de gabinete atravessou legislaturas como vírus que muda e sobrevive. Peculato-uso, abuso de prerrogativa, rachadinha, funcionário fantasma, quatro núcleos de conduta que se repetem com a paciência de quem sabe que o regimento é cego e o eleitor é desinformado.
O gabinete é forte. O regimento é fraco. E entre os dois, o vereador opera no campo cinzento onde o jeito de cada gabinete trabalhar é o eufemismo para práticas que acabam no Ministério Público. O Conselho de Ética? É o bombeiro acionado depois que o fogo devorou tudo.
Weber disse que três coisas fazem um político: paixão, responsabilidade e senso de proporção. Em Ribeirão Preto, as três foram substituídas. A paixão é pelo carro oficial. A responsabilidade é por ninguém. O senso de proporção é a capacidade de roubar sem ser notado.
O problema não é que o político seja vaidoso. Todo homem é. O problema é que a vaidade dele tem o poder de legislar, de votar o orçamento, de fiscalizar o prefeito, e escolhe não fazer nenhuma dessas três coisas. O vereador vaidoso desvia salário de assessor, nomeia fantasma, usa o carro no domingo, e cada um desses gestos não é roubo de dinheiro apenas. É o roubo do que o dinheiro deveria ter sido.
Weber disse também que a política é trabalho duro, lento, que exige paixão e paciência. Em Ribeirão Preto, ninguém tem paciência para o trabalho duro. Preferem a rachadinha, o fantasma, o regimento que não pergunta, tudo mais fácil do que legislar.
O Narciso do mito apaixonou-se pela própria imagem e morreu afogado. Aqui, o Narciso tem mandato, regimento cúmplice e eleitor que esquece. Ele não morre.
É reeleito.
*Luiz Rufino, é professor e cientista político