A política subterrânea deve ser passada a limpo

Um verdadeiro lamaçal. É essa a imagem que inevitavelmente vem à mente do cidadão quando o cenário político de Ribeirão Preto é atingido por um abalo sísmico da magnitude do que testemunhamos agora.

, atualizado

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Após a sua cassação, o ex-vereador Lincoln Fernandes quebrou o silêncio e trouxe a público denúncias de extrema gravidade. Ao relatar que vem sofrendo ameaças e apontar um suposto esquema de uso ilegal da máquina pública — envolvendo diretamente o vereador Isaac Antunes, além de assessores e ex-assessores —, Lincoln não apenas expôs uma ferida aberta, mas convocou a cidade a olhar para um espelho desconfortável.

Diante de acusações desse calibre, a sociedade ribeirãopretana não pode, sob hipótese alguma, se resignar ou aceitar o silêncio como resposta. O que está em jogo não é um mero embate paroquial ou uma disputa de narrativas entre opositores; o que se descortina diante de nós é a suspeita de uma política sórdida, subterrânea, que opera nos bastidores em detrimento do real interesse da população.

Há muito não se via a política local envolvida em escândalos desse porte. A gravidade dos fatos nos remete, inevitavelmente, à Operação Sevandija, deflagrada em 2016, que se tornou o maior escândalo de corrupção da história de Ribeirão Preto. Na época, as investigações do Ministério Público e da Polícia Federal desvendaram fraudes em licitações e desvios que superaram os R$ 200 milhões dos cofres municipais, tendo como epicentros a Coderp e o Daerp.

O trauma daquele período deixou claro o custo devastador do loteamento político e o perigo de submergirmos novamente no lodo da imoralidade.

Práticas fisiológicas e o uso patrimonialista da estrutura estatal são o avesso do republicanismo. Quando a máquina pública é supostamente instrumentalizada para perseguições, favorecimentos ou blindagens, o cidadão comum é quem paga a conta. O dinheiro que deveria financiar a saúde, a educação e a infraestrutura dos nossos bairros acaba servindo de combustível para a manutenção de feudos de poder.

Ribeirão Preto tem uma história de relevância econômica que não condiz com as sombras que, ciclicamente, mancham as páginas de seu noticiário. A população tem o direito — e o dever cívico — de exigir uma apuração rigorosa, imediata e totalmente isenta por parte das autoridades competentes, sejam elas o Poder Judiciário, o Ministério Público ou as comissões de ética da Câmara Municipal.

Neste momento, o princípio constitucional da presunção de inocência deve ser respeitado, garantindo-se aos citados o amplo direito de defesa. Contudo, o peso do nosso passado recente exige que as investigações alcancem as últimas consequências. Não há espaço para panos quentes ou corporativismo. É urgente passarmos a nossa política a limpo, expurgando as más práticas que asfixiam o desenvolvimento da cidade.

O futuro de Ribeirão Preto depende da nossa capacidade de exigir transparência e de varrer para fora da vida pública aqueles que enxergam o mandato não como um sacerdócio em favor do bem comum, mas como um balcão de negócios escusos.

A indignação da sociedade precisa se transformar em fiscalização permanente. Só assim resgataremos a dignidade da nossa representação política.

*Advogado, Professor Universitário e articulista político.