Sócrates encontra Lula
Praça ateniense. Manhã. Sócrates, descalço e com manto surrado, interpelava mercadores e políticos quando avista Lula, de gravata vermelha, cercado de assessores.
, atualizado
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SÓCRATES (com ar de quem pede informação): Diz-me, ó excelso estrangeiro: ouvi dizer que propões acabar com a escala 6x1, para que o trabalhador tenha mais dignidade e descanse dois dias. É verdade?
LULA (sorrindo amplamente): É verdade, SÓCRATES! Os trabalhadores do Brasil não querem mais seis por um. É preciso inventar uma jornada mais flexível.
SÓCRATES: Flexível! E todos os trabalhadores, tanto do setor público quanto do privado, serão flexibilizados ao mesmo tempo, com a mesma lei?
LULA: Claro! Todos serão beneficiados.
SÓCRATES: Então não haverá privilégio para uns e aperto para outros? O operário e o servidor do Estado começarão juntos?
LULA (titubeando): Bem... o setor público terá um prazo de doze meses para se adaptar.
SÓCRATES (arregaçando as sobrancelhas): Doze meses! Então o operário muda já, e o servidor espera um ano? Isso é igualdade, ou é igualdade com atraso de entrega?
LULA: É... transição.
SÓCRATES: Transição! Mas digo-te: se uma lei nova rasga acordos assinados entre patrões e empregados, não estará o Estado quebrando sua própria palavra? E se o Estado quebra a palavra, por que o cidadão deveria confiar nela?
LULA: Estamos construindo propostas que interessam a empresários e trabalhadores.
SÓCRATES (coçando a barba): Mas permito-me uma dúvida: se a proposta é tão benfazeja para ambos, por que os tribunais se preparam para uma "avalanche" de ações? A Constituição é clara: nenhuma lei posterior pode anular contratos já firmados. E agora, com um trunfo só de retórica, pretendes rasgar acordos coletivos assinados legalmente. Não seria isso como queimar a ponte depois de atravessá-la? Se o próprio Estado, guardião da lei, quebra sua própria palavra, que autoridade moral lhe resta para exigir obediência dos cidadãos? Dize-me: isso é justiça, ou é o teatro da justiça?
LULA (inquieto): Haverá ajustes.
SÓCRATES: Ajustes! Agora pondera: se há mais de duas mil quatrocentas ocupações no teu reino, e impões uma única escala a todas, não estás apertando o trabalhador numa "camisa de força"? O cirurgião que opera doze horas, o piloto que cruza os céus, o lavrador que colhe quando o sol permite, todos vestirão a mesma túnica?
LULA: Cada setor terá sua particularidade.
SÓCRATES (aproximando-se): Particularidade? Então não é uma lei única, mas duzentas leis escondidas numa só? Por que não deixar que cada ofício negocie consigo mesmo?
LULA (suando): O trabalhador merece dignidade, SÓCRATES.
SÓCRATES: Dignidade! Nobre palavra. Mas se prometes que ele trabalhará menos e ganhará o mesmo, de onde sairá o dinheiro que não foi produzido? Brota das árvores?
LULA: A economia vai crescer.
SÓCRATES: Ah! A economia crescerá porque todos trabalharão menos. É como dizer que o boi engordará se comer menos capim. Não serás tu a vender uma ilusão aos trabalhadores para ganhar aplausos agora?
LULA (silêncio):
SÓCRATES (implacável): Respondes-me: se o trabalhador ganha igual produzindo menos, quem paga a diferença? Se o hospital não pode operar doze por trinta e seis, o doente espera segunda-feira? Se o avião não voa, o passageiro anda a pé?
LULA (olhando o relógio): SÓCRATES, eu... eu tenho uma reunião.
SÓCRATES (sorrindo): Uma reunião? Mas o sol ainda está baixo.
LULA (afastando-se): Estou atrasado. Preciso ir.
SÓCRATES (aos que assistiam): Vede, atenienses! O homem que queria inventar uma nova jornada para os trabalhadores não aguentou dez minutos de conversa. Foge como Hipias o Sofista, que, quando as contradições o apertavam, lembrava-se subitamente de que tinha um compromisso. E assim é sempre: quem promete o céu na terra, quando questionado, descobre que tem pressa.
LULA desaparece entre os arcos da praça, assessores tropeçando atrás. SÓCRATES volta descalço para a margem do Ilisso.
*é professor e cientista político