O teatro continua
A cassação de Lincoln Fernandes por rachadinha, aprovada por unanimidade pela Câmara de Ribeirão Preto, não encerra uma crise: apenas expõe, com brutal nitidez, o estado de decomposição moral a que chegou a política local.
, atualizado
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A cidade fez o que precisava ser feito. Rachadinha não é desvio menor, nem malandragem de bastidor: é corrupção miúda, persistente e corrosiva. E a resposta institucional, ainda que tardia, era indispensável.
É justo registrar, nesse cenário, o trabalho diligente da relatora Judeti Zilli (PT). Seu esforço na condução da Comissão Processante, inclusive com a emoção demonstrada ao relatar o desgaste e a exaustão do colegiado, merece respeito. Houve ali seriedade individual. Houve preocupação real com o rito, com a apuração e com a responsabilidade do voto. Mas seria ingenuidade confundir a dedicação da relatora com a limpeza do processo político como um todo. O que se viu, no conjunto, foi um imenso teatro de fantoches, com falas previsíveis, silêncios oportunistas, conveniências partidárias e hipocrisias cuidadosamente distribuídas pelo plenário e pelos bastidores.
A verdade inconveniente é outra: a prática da rachadinha não nasceu ontem, nem surgiu como espanto súbito na vida pública de Ribeirão. Há anos — para não dizer há décadas — esse tipo de expediente é assunto correntio nos bastidores políticos da cidade. O que mudou não foi a natureza do malfeito, mas a conveniência de enfrentá-lo. Por isso, é difícil não concluir que o verdadeiro "crime" político de Lincoln, para efeito de cassação, talvez não tenha sido apenas a rachadinha em si — que, a meu ver, parece absolutamente caracterizada —, mas sobretudo os calos em que ele pisou recentemente.
E é justamente por isso que suas acusações finais contra Isaac Antunes (PL) não podem ser tratadas como mero chilique de derrotado. Lincoln caiu atirando. Divulgou vídeo, imputou práticas criminosas ao colega de partido, falou em direcionamento político de seu processo e lançou suspeitas gravíssimas sobre o funcionamento interno da Câmara. Nada disso absolve Lincoln. Nada disso diminui sua responsabilidade. Mas também nada disso autoriza o Legislativo a virar o rosto.
Se as denúncias são falsas, devem ser desmentidas com apuração séria. Se são verdadeiras, o que está posto é ainda mais grave do que a própria sessão de cassação admitiu. E aqui cabe um exemplo perturbador: causou espanto o mesmo Isaac, ao fazer um arremedo de defesa durante a sessão que cassou Fernandes, afirmar, em alto em bom son, que Samuel Prisco - apontado como autor dos vídeos que denunciaram a rachadinha de Lincoln - não ser seu assessor. A cidade inteira sabe que não é verdade, mas o vereador não teve problemas em negar o que todo mundo sabe publicamente. E mais assustador que a tentativa de reescrever os fatos é ver parte da imprensa aceitar esse tipo de absurdo sem o mínimo dever de confrontação.
Repito: isto não é defesa de Lincoln Fernandes. Ao contrário. A cassação se impunha. Mas, se o Legislativo quiser de fato dar exemplo, precisa ter coragem para ir além da queda de um personagem já consumido. As acusações feitas por ele são graves demais para serem tratadas como ruído terminal de uma morte política. Se existem provas efetivas, como ele garantiu, a Câmara tem obrigação moral e institucional de apurar. Do contrário, terá cassado um vereador culpado enquanto preserva o palco, os fios e os marionetistas.
* Jornalisa e advogado, é editor-chefe do Jornal Ribeirão