O Gigante Adormecido e a Pequenez Legislativa
Ribeirão Preto é, indiscutivelmente, uma potência. Somos o centro de uma região metropolitana que respira pujança econômica e excelência acadêmica. No entanto, ao cruzar as portas da Câmara Municipal, essa grandiosidade se dissolve em um cenário de mediocridade que beira o inacreditável.
, atualizado
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A discrepância entre a importância da cidade e a atuação de seus representantes não é apenas um hiato; é um abismo ético e funcional que custa caro ao contribuinte.
A atual legislatura parece ter trocado a vocação pública por um pragmatismo corporativista vergonhoso. Assistimos, atônitos, a atos de edis que extrapolam suas funções legislativas para atuar como militantes de ideologias extremistas.
Sob o manto de um conservadorismo de fachada, utilizam o mandato para perseguir fantasmas ideológicos enquanto ignoram o decoro parlamentar. O mais grave não é apenas o excesso de uns, mas a complacência de outros: a Câmara tornou-se um ambiente onde a punição inexiste para os "seus", selando um pacto de impunidade que fere a dignidade da instituição.
Enquanto a cidade carece de debates profundos sobre mobilidade e infraestrutura, o plenário se perde em projetos bizarros como o "pipódromo municipal" ou legislações que tentam cercear a expressão artística e burocratizar a assistência social.
Tais medidas possuem a eficácia de uma nota de três reais e a constitucionalidade duvidosa de quem ignora os princípios mais elementares do Direito. É a política do espetáculo vazio, onde o "grito" ideológico substitui a competência técnica.
Entretanto, a culpa dessa paralisia não recai apenas sobre quem ocupa as cadeiras, mas também sobre o silêncio de quem as financia. O exercício da cidadania não se esgota no apertar de teclas na urna; ele começa ali. Fiscalizar a atuação dos vereadores, acompanhar as votações e cobrar coerência nas comissões de ética são deveres dos quais o eleitorado ribeirão-pretano tem se distanciado.
A omissão do cidadão é o adubo que nutre a incompetência parlamentar. Sem uma fiscalização social implacável e organizada, o corporativismo seguirá operando em causa própria.
Diante deste cenário, a solução não virá de um salvador, mas da maturidade de uma sociedade que entende o valor do seu imposto e do seu voto. Nas próximas eleições, a responsabilidade é nossa: ou continuaremos financiando o teatro do absurdo, ou resgataremos a dignidade de uma Casa que deve estar à altura da grandeza de seu povo.
O voto consciente e a vigilância diária são os únicos mecanismos de defesa contra a pequenez que insiste em nos apequenar.
*Advogado, Professor Universitário e articulista político