A quem interessa calar um mandato popular?
Aprendi cedo que a democracia não termina no dia da eleição. O voto é apenas o começo de uma relação de confiança entre quem representa e quem é representado. É no exercício cotidiano do mandato, no debate público e na disputa de ideias que essa relação se materializa.
, atualizado
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Por isso, não posso deixar de refletir sobre o que vem acontecendo nos últimos anos em Ribeirão. Com o arquivamento unânime de mais uma denúncia, em 25 de março de 2026, chega a dezesseis o número de tentativas de cassação contra o meu mandato. Dezesseis. Esse número, por si só, já revela muito mais sobre o ambiente político que enfrentamos do que sobre qualquer suposta irregularidade.
Não se trata apenas de divergência política. Divergir é parte essencial da democracia. O problema começa quando instrumentos institucionais legítimos passam a ser utilizados como ferramentas de desgaste permanente contra um mandato eleito. Ao longo desse processo, vimos de tudo. Em 2021, um pedido de cassação chegou a ser apresentado por uma denunciante cuja identidade se revelou fraudulenta. Outras acusações envolvendo o uso de veículo oficial foram arquivadas por falta de provas. O que permaneceu, na prática, foram ataques pessoais, injúrias raciais e tentativas constantes de transformar o debate político em um terreno de hostilidade.
Essa experiência me fez perceber algo que muitas mulheres na política já conhecem bem. A violência política raramente aparece apenas de forma direta. É uma estratégia que busca produzir desgaste permanente até que a própria presença dessas vozes seja colocada em dúvida.Não é coincidência que esse tipo de prática atinja com mais intensidade mandatos de mulheres, de jovens, de pessoas negras ou de representantes da comunidade LGBTQIA . Em muitos casos, o incômodo não está no que fazemos de errado — mas simplesmente no fato de estarmos ali.
Quando a estrutura institucional passa a ser utilizada para impedir que uma parlamentar exerça plenamente suas funções, o problema deixa de ser individual. O que está em disputa é a própria qualidade da democracia. Vejo, em todo o país, jovens lideranças que chegam à política com novas agendas, novas formas de atuação e novas representações sociais, e que encontram barreiras erguidas para limitar sua atuação. Felizmente, o arquivamento unânime da última denúncia demonstrou que ainda existem limites institucionais que precisam ser respeitados. Prevaleceu o entendimento de que a Câmara não pode se transformar em palco de perseguições políticas.
A política já enfrenta desafios suficientes no Brasil. A desconfiança nas instituições, o avanço da desinformação e a polarização crescente exigem maturidade democrática de todos nós. Transformar instrumentos institucionais em armas de desgaste político apenas contribui para fragilizar ainda mais o ambiente democrático.O voto popular precisa ser respeitado. Não como um privilégio individual, mas como expressão da vontade coletiva. Quando tentativas sucessivas são mobilizadas para interromper ou deslegitimar um mandato eleito, não é apenas uma pessoa que está sendo questionada. É a própria força da democracia que está sendo colocada à prova. E é por isso que sigo fazendo a pergunta que, até agora, ainda não recebeu uma resposta convincente:A quem interessa calar um mandato popular?
*vereadora pelo PT