Marcha fúnebre da direita: um inventário de perdas

O que foi feito, amigo, de tudo o que a direita sonhou? Hoje, debruço-me sobre a carcaça dos erros de Bolsonaro; noutra aurora, farei a autópsia de Lula 3. Por ora, fiquem com a lúgubre marcha fúnebre da direita brasileira.

, atualizado

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Ah, o Brasil! Essa pátria que não apenas se prostitui, mas faz questão de anotar o preço no caderninho da infâmia, com o cinismo de quem já não cora diante do espelho da própria degradação. Dizia o Velho da Virgínia — goste o leitor ou não —, com a precisão de um legista que já fareja o formol, que Bolsonaro acabaria vivendo das migalhas que caem da mesa daqueles que o detestam. A profecia, meus caros, é o óbvio ululante: cumpriu-se.

Com a morte do Velho, a direita órfã migrou da forja das ideias para o balcão do engajamento e da monetização rasteira. Onde havia um norte, hoje boceja um vácuo. O movimento corre o risco de tornar-se um gigante de pés de barro: inflado de seguidores, mas exangue de coesão para suportar o estupor de um segundo turno. A ausência de uma bússola intelectual transformou a direita num arquipélago de feudos, onde influenciadores mercadejam cliques enquanto a narrativa, frágil e acéfala, perde a capacidade de pautar o debate público de forma proativa.

E os generais? Que espetáculo de inépcia e anacronismo! O que temos hoje é uma elite militar que ainda respira o oxigênio viciado da década de 70. São desenvolvimentistas de pijama, nacionalistas de almanaque que acreditam habitar o "milagre econômico" enquanto o mundo gira no eixo da inteligência artificial e do globalismo financeiro. É uma inépcia que dói na alma. Cegos para o tabuleiro geopolítico, perdem-se em teorias de segurança nacional que já haviam caducado antes mesmo da queda do Muro de Berlim. Foi essa ala, fardada e tateante, que convenceu Bolsonaro a trocar a militância digital — os "garotos do Twitter" — pela governabilidade ilusória do Centrão. O resultado? A desidratação lenta e amarga do movimento.

E o tal "golpe"? Ou aquela "minuta" de papel de pão? Ora, convenhamos: o golpe é uma ideia que exige, no mínimo, um cérebro funcionando. O que vimos foi o vácuo absoluto de massa cinzenta. É uma impossibilidade cognitiva cogitar ruptura institucional vinda de gente que não articula um pensamento estratégico para além da próxima gratificação de cargo comissionado. A minuta não é um crime de lesa-pátria; é um atestado de óbito da inteligência estratégica. Não protegeram a pátria; protegeram o soldo, a aposentadoria e o status quo de uma burocracia que treme diante de uma toga.

Vejam agora o Príncipe, o herdeiro ungido, o Flávio. Ele circula pelos corredores de Brasília com o cinismo de quem já vislumbra o martelo do leiloeiro. O conservador clássico — se é que tal espécime ainda respira nestas bandas — olha para o filho do Presidente e sente náusea. Sem capital intelectual, Flávio não possui crédito para manobras de risco. Cada flerte com o Judiciário ou com o governo Lula é lido como fraqueza, nunca como astúcia. O vácuo de inteligência impõe um teto ao seu crescimento, condenando-o ao eterno recall da sombra paterna. A candidatura é um castelo de cartas ao vento.

O Brasil de 2026 não é uma eleição; é um inventário de perdas. Sob o peso da fragilidade terminal, estamos todos mortos, meus caros, mas esquecemos de deitar. No vácuo do brio, resta-nos a náusea de assistir ao leilão final da pátria, aguardando que o tempo nos faça, enfim, o favor do enterro.

*Professor e cientista político