Jornada 6x1 e a 'perturbação histórica'
"A abolição immediata, sem attenção aos interesses da lavoura e sem a devida indemnisação aos proprietarios, representará grave perturbação na ordem economica do Imperio. Não se póde sacrificar, em nome de um sentimentalismo politico, a estabilidade da producção nacional." . Eis o editorial publicado em maio de 1888, às vésperas da Lei Áurea, Jornal do Commercio.
, atualizado
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A ortografia é de época; o argumento, infelizmente, é atemporal. A narrativa era clara: qualquer avanço civilizatório que ampliasse direitos aos setores historicamente marginalizados seria, necessariamente, uma ameaça ao crescimento.
Se olharmos pelo retrovisor da história brasileira, é um padrão recorrente. No Brasil Colônia e no Império, a elite agroexportadora — grandes fazendeiros que exploravam inicialmente mão de obra indígena e, depois, africanos escravizados — mobilizava a imprensa e o discurso econômico para frear mudanças estruturais. Já na República, os coronéis da política do "café com leite" e, posteriormente, parte dos novos industriais repetiram o mesmo enredo quando surgiram as primeiras legislações trabalhistas.
As conquistas sociais que se seguiram confirmam essa trajetória de tensão. A Constituição de 1934 estabeleceu jornada máxima de oito horas diárias e, em 1943, a CLT regulamentou a jornada de 48 horas semanais, diminuída para 44 horas na Constituição de 1988. Cada avanço foi precedido por resistência empresarial, alertas sobre "colapso produtivo" e previsões de crise. E, no entanto, o país não quebrou por reconhecer direitos — ao contrário, modernizou-se.
Hoje, o debate retorna com nova roupagem com o questionamento às jornadas extensas, especialmente a escala 6x1, associada a altos índices de insatisfação, rotatividade e adoecimento mental. O impacto é concreto: menos tempo livre, mais exaustão e maior incidência de afastamentos por saúde mental.
Houve uma série de proposta, de parlamentares do PT, visando modificar essa realidade, entre elas as escalas 4x3 e 5x2. Novamente, ouvem-se vozes preocupadas com custos e produtividade. Mas a experiência histórica ensina que ampliar direitos não é sinônimo de inviabilizar a economia. Pelo contrário: sociedades que equilibram trabalho e vida pessoal tendem a apresentar maior estabilidade, produtividade sustentável e melhor qualidade de vida.
A redução da jornada impactaria diretamente ao menos 37% dos trabalhadores brasileiros. Mais do que um debate técnico, trata-se de uma escolha civilizatória. O mesmo argumento que, em 1888, temia a "perturbação da ordem econômica" é mobilizado hoje para questionar a redistribuição do tempo e do trabalho. A história demonstra, porém, que cada ampliação de direitos — da abolição à jornada de oito horas — encontrou resistência semelhante e, ainda assim, consolidou-se como marco de progresso.
Reduzir a jornada de trabalho não é apenas possível, é coerente com um projeto de sociedade que valoriza a saúde ocupacional, a estabilidade no emprego e uma distribuição mais justa de renda e de tempo. Se aprendermos com o passado, compreenderemos que o verdadeiro risco não está em ampliar direitos, mas em perpetuar desigualdades sob o pretexto da "ordem econômica".
*filiado ao PT, é professor e dirigente sindical