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Há quem confunda presidência de Câmara com propriedade privada. Franco Ferro (PP), vereador que se movimenta nos bastidores para suceder Daniel Gobbi (PP) no comando do Legislativo, sob a benção do deputado estadual eleito, Isaac Antunes (PL), decidiu transformar a disputa interna em um pacote de conveniências pessoais — e, de quebra, em um teste de paciência para a cidade.
A primeira trapalhada é de método, e é reveladora. Ao empilhar na mesma pauta temas que mexem com a Lei Orgânica e com a remuneração de servidores, o vereador não demonstra pressa legislativa: demonstra desprezo pelo rito. Matéria de Lei Orgânica exige quórum qualificado, dois turnos, interstício, debate aprofundado. Remuneração de servidor exige responsabilidade fiscal, estudo de impacto, transparência. Juntar tudo num mesmo dia é a técnica de quem quer aprovar no atropelo o que não sobreviveria à luz do dia. Retrocesso institucional puro: a pauta deixa de ser instrumento de deliberação e vira ferramenta de pressão.
E há o histórico. Ferro é figura contumaz em inquéritos do Ministério Público que apuram picaretagens variadas — de funcionários fantasma a recebimento irregular de verbas de origem duvidosa, passando pelo mau uso de veículo público. No caso mais documentado, o carro oficial de placas STA-5H10 foi flagrado de forma recorrente em frente ao salão de cabeleireiro do próprio vereador, em Bonfim Paulista, e a Promotoria do Patrimônio Público instaurou procedimento para apurar possível improbidade administrativa. Não é boato de rede social: é procedimento formal, com promotor designado e diligências em curso.
Em sua pretensa candidatura ao comando do Legislativo, a situação degringola. Nos bastidores, parlamentares dos mais variados tipos afirmam terem ouvido dele promessas sobre o fim do monitoramento dos carros oficiais por GPS — exatamente a ferramenta criada para coibir o uso particular da frota que ele mesmo protagonizou; a implementação de férias e 13º salário para vereadores; o aumento do número de cadeiras de 21 para 27; e a blindagem dos edis contra o que ele chama de "investidas autoritárias" do Ministério Público. Cada item, isolado, tem defensores. Juntos, na mesma canetada, formam um retrato: menos controle, mais verba, mais cadeiras, menos fiscalização. É o Legislativo se desenhando para caber no interesse de quem o preside.
Oficialmente, Franco nega as propostas. Seria o caso de saber, se assim for, os motivos de oito parlamentares confirmarem, sob condição de anonimato, o teor das propostas.
Vergonhoso não é apenas o conteúdo. É a coincidência. E que não diz respeito apenas a Franco, mas a todo o Legislativo. Problema que não começou hoje, mas que parece longe do fim.
Qualquer que seja a real situação, Ribeirão Preto merece uma Câmara que se fiscalize antes de exigir respeito. E merece saber, cadeira por cadeira, quem pretende votar contra o GPS, a favor do 13º e a favor da blindagem.