A democracia não precisa de listas e ódio

, atualizado

Compartilhar notícia

Passada a apuração, começa em Ribeirão Preto o segundo turno que nenhuma urna decidiu: o da conta devedora. Circulam listas. Nomes de vizinhos, colegas de trabalho, profissionais liberais, gente que ousou dizer em público o que pensa — ou apenas votou como lhe parecia certo. O propósito declarado é um só: retaliar. Cobrar, marcar, não esquecer.

Isso não é política. É caça.

E é caça velha, que já vimos este filme outras vezes neste país, com outros personagens e o mesmo roteiro. A cidade deu maioria ampla a um dos campos, justamente o derrotado nacionalmente. Isso não é licença para perseguir o divergente.

Aqui é preciso honestidade, porque sem ela o raciocínio não se sustenta. Não há santos. O erro da direita é o mesmo erro da esquerda. A vítima de hoje, muito provavelmente, é a mesma pessoa que dias atrás vociferava "pobre de direita", "fascista", "gente que não pensa" e outras aberrações do mesmo catálogo. Hoje ela descobre o desconforto de ser marcada. Amanhã, quando a roda girar, será ela a pedir a lista. É assim que funciona o vício: ninguém quer abolir a fogueira, todos querem apenas escolher quem arde.

E convenhamos: a esquerda persegue tanto quanto — ou mais — que a direita. A diferença é que faz isso com infinita elegância. Persegue em nome da virtude, da ciência, do bem comum, em parágrafos bem construídos, com nota de rodapé e sorriso cordial. É mais inteligente na execução. Não é mais correta no mérito. A sofisticação do método nunca tornou a censura menos censura; apenas a tornou mais difícil de identificar e mais fácil de aplaudir.

O fundo do problema é outro, e é mais grave que a lista da semana: transformamos política em partido, e partido em identidade. Enquanto política for partido, o adversário é inimigo; e inimigo, por definição, não merece direitos. A partir daí, xingar passa a ser dever cívico, e conviver passa a ser traição. É o mesmo mecanismo que produziu o "comunista" e o "fascista" como sentenças prontas, que dispensam argumento e encerram conversa.

Política deveria ser método: resolver conflitos sem eliminar o outro. Divergência é a base da democracia — e divergir não significa compactuar com a opinião alheia, nem fingir que todas as ideias se equivalem. Significa aceitar que o outro, a partir das experiências e escolhas dele, possa chegar a uma conclusão diferente da minha. Sem ser fascista por isso. Sem ser nazista. Sem ser comunista. Sem ser "esquerdista vagabundo".

Há um limite que a lei já conhece, e vale lembrar sem histeria: discordar, votar e dizer o que pensa é direito constitucional, e crítica dura é parte do jogo. Mas organizar perseguição, expor pessoas à hostilidade, incitar violência ou atacar a honra têm consequência jurídica própria. A linha não está no desconforto de quem se sentiu ofendido. Está no ato de convocar terceiros contra alguém por causa da opinião dele.

Toda lista é um espelho. Quem lê os nomes deveria se perguntar o que fez, nos últimos dez anos, com a opinião de quem discordava.

Ribeirão Preto merece mais que uma temporada de vingança. Uma cidade não se mede pela capacidade de silenciar, e sim pela qualidade da discordância que consegue sustentar. Democracia não morre com tanque na rua: morre devagar, em listas de WhatsApp, sob aplauso.