Quando a única resposta é tentar calar

, atualizado

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Há uma diferença elementar entre contestar uma opinião e tentar interditá-la. Isaac Antunes (PL), vereador e candidato a deputado estadual pelo PL, escolheu a segunda via: diante de um editorial do Jornal Ribeirão que condenava a exploração política de menores, recorreu à Justiça Eleitoral para pedir que o jornal publicasse uma nota sobre o assunto e se abstivesse de novos comentários a respeito. Nota, por sinal, que o jornal jamais se negou a publicar.

Isaac não procurou o jornal para pedir espaço, apresentar sua versão ou discutir o conteúdo. Foi direto ao Judiciário. O caso ainda será julgado — e é importante que ninguém trate o pedido como decisão já tomada. Mas a iniciativa, por si só, merece ser chamada pelo nome: uma tentativa de impor limites à manifestação de um veículo de imprensa.

O JR foi informado da nota pela Justiça - e a publica nesta edição, sem precisar de qualquer determinação judicial para tanto, como faria amistosamente com qualquer manifestação, de qualquer político, de qualquer partido. Mas não aceita, de forma alguma, a censura.

O editorial incomodou. Além de defender que crianças e adolescentes não sejam transformados em instrumentos de disputa política, chamou de "arrombados" e "canalhas" políticos e eleitores que normalizaram situações desse tipo. A linguagem é dura, deliberadamente dura. Pode desagradar, provocar reação e render críticas. O que não pode é servir de pretexto para exigir que o jornal publique uma nota por determinação judicial ou se cale sobre o tema.

Se houve ofensa pessoal, falsidade ou abuso, que isso seja debatido nos instrumentos legais cabíveis e com as garantias de todos os envolvidos. Mas pedir que um jornal deixe de comentar um assunto é outra coisa: é querer que o debate termine não com uma resposta, mas com uma mordaça.

Postura, por sinal, recorrente ao parlamentar, que também exigiu do Judiciário a retirada do ar de uma matéria do Jornal Ribeirão que afirmou que ele foi "derrubado" do cargo de presidente da Câmara depois que o MP recomendou a realização de novas eleições do Legislativo.

Em tempos de crescente judicialização das disputas eleitorais, candidatos deveriam ter especial cuidado para não transformar o Judiciário em atalho para constranger a crítica. A Justiça existe para aplicar a lei, não para funcionar como departamento de relações públicas de campanha.

Jornal não está acima de crítica — e o Jornal Ribeirão também deve responder pelo que publica. Mas imprensa livre inclui o direito de publicar opiniões ásperas, inclusive aquelas que irritam poderosos e candidatos. Quem discorda pode contestar, pedir espaço e apresentar fatos. O que não pode é querer escolher, por via judicial, o que o jornal está autorizado a dizer.

A ação ainda será julgada. Até lá, fica uma pergunta incômoda: se a convicção de Isaac Antunes é que o editorial está errado, por que não enfrentá-lo no debate público? Tentar calar a crítica não a desmente. Só deixa mais claro o quanto ela incomoda.