Compartilhar notícia
Há coisas que não admitem eufemismo. Expor uma criança de 11 anos, dentro da própria escola, para produzir vídeo, provocar reação e faturar politicamente não é fiscalização. É oportunismo da pior espécie. E, por falta de um, dois candidatos - um à Assembleia Legislativa e outro à Câmara Federal - de Ribeirão se enquadram precisamente nessa categoria.
Segundo o Ministério Público, Hagara do Pão de Queijo (Avante) teria questionado servidores sobre o banheiro usado pela estudante e até sobre seu órgão genital. Depois, os vídeos foram parar nas redes sociais e, conforme a Promotoria, ultrapassaram um milhão de compartilhamentos. A Justiça chegou a impedi-lo de entrar em escolas para fazer novas gravações que expusessem crianças e adolescentes a situações vexatórias.
Como se a primeira exploração não bastasse, Isaac Antunes (PL), de acordo com o inquérito, foi à mesma escola e encontrou alunos que faziam cartazes em defesa da colega. Em vez de compreender que ali havia solidariedade, respeito e humanidade, preferiu o deboche, chegando ao absurdo de postar um debate feito com um pré-adolescente. Absurdamente, desqualificou o estudante, que estaria "militando". Tudo fartamente distribuído em suas redes sociais. O MPSP sustenta que também havia, nesse caso, a intenção de transformar a exposição da criança em combustível eleitoral.
Infelizmente, vivemos em um tempo em que arranjar confusão em prédios educacionais virou sinônimo de fiscalização. O oportunismo e a verborragia, muitas vezes levados ao extremo da agressão física e moral, virou a regra para a curtida fácil de quem, via de regra, tem poucas ideias a debater.
O caso de Ribeirão é ainda mais emblemático por envolver não apenas a educação mas também alunos menores de idade. E ai é preciso dizer o óbvio: criança não é material de campanha. Escola não é estúdio de vídeo. Professor não é figurante de provocação política. E sofrimento de menor não é trampolim para pré-candidatura.
O caso é ainda mais grave porque envolve uma menina trans, justamente um grupo que já enfrenta preconceito, isolamento e violência. Quem invade esse ambiente para apontar, constranger e transformar uma criança em personagem de guerra cultural não está defendendo a família, a moral ou a escola. Está usando a vulnerabilidade alheia como palanque.
A ação civil pública proposta pelo Ministério Público pede a retirada das publicações e indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos. Os envolvidos ainda poderão apresentar defesa, e caberá à Justiça decidir. Mas há uma decisão que qualquer cidadão decente pode tomar desde já: repudiar a política feita à base da humilhação de crianças.
Aos canalhas e "arrombados" - candidatos e eleitores - que confundem atuação política com licença para constranger, fica o recado: coragem não é entrar em escola para afrontar menor de idade. Coragem é defender o interesse público sem precisar fabricar inimigos, sem expor criança e sem transformar preconceito em conteúdo para rede social.Quem precisa de uma criança vulnerável para parecer forte já confessou, por conta própria, a sua fraqueza e covardia moral. Que as urnas também deem seu recado claro e intransigente para que situações desse tipo jamais voltem a ocorrer.