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É preciso colocar o debate no lugar certo quando o assunto é nomeações. E não falamos apenas sobre parentes de vereadores alocados em empresas como a RP Mobi e Fundet, para citar apenas algumas. O problema não está, por definição, nas nomeações para cargos comissionados em empresas de economia mista, fundações e demais estruturas da administração indireta. Cargos de confiança existem, são previstos e, em muitos casos, atendem a necessidades reais de gestão. O problema começa quando essas escolhas são feitas sob névoa espessa, sem transparência suficiente para que a sociedade compreenda quem foi nomeado, com qual qualificação, para exercer qual função e por qual critério.
É justamente nesse ambiente turvo que as denúncias pululam. E pululam por uma razão simples: onde falta informação, sobra suspeita. Quando a administração pública não apresenta com clareza os currículos, a experiência profissional, a justificativa da escolha e a natureza exata da função, o cidadão passa a olhar para cada nomeação com desconfiança. Não porque toda nomeação seja irregular, mas porque a falta de transparência transforma até o ato legítimo em motivo de dúvida.Esse é o ponto central que precisa ser afirmado sem demagogia.
Não se está dizendo que toda indicação é indevida. Também não se está defendendo uma caça às bruxas contra qualquer cargo comissionado. O que se cobra é algo mais básico e mais sério: publicidade real. Em estruturas que lidam com dinheiro público, influência pública e finalidade pública, a sociedade não pode ser tratada como mera espectadora de decisões fechadas em gabinete.
Se há qualificação, mostre-se a qualificação. Se há critério técnico, apresente-se o critério técnico. Se a escolha foi correta, a transparência é sua melhor defesa. O que não se sustenta mais é a cultura do "nomeia primeiro, explica depois" — e, muitas vezes, nem explica. Esse modelo desgasta a instituição, enfraquece a autoridade do gestor e corrói a credibilidade do próprio nomeado, que passa a carregar o peso de uma escolha feita sem luz.
Ribeirão Preto já deu sinais de que esse debate não é abstrato. A própria necessidade de ampliar regras de divulgação sobre ocupantes de cargos comissionados revela que havia, e ainda há, um déficit de visibilidade que precisa ser enfrentado. Publicar salários ajuda, mas não basta. Transparência de verdade exige acesso fácil à formação, à trajetória profissional, à função exercida e ao motivo da nomeação. Sem isso, a sociedade vê apenas o cargo e o nome; não vê o mérito, não vê o nexo, não vê a justificativa.No fim, a questão é menos ideológica do que republicana.
Nomear pode ser legítimo. Esconder, jamais.
O que compromete a confiança pública não é a existência do cargo comissionado, mas a sombra que recai sobre ele quando o poder público se recusa a abrir por inteiro aquilo que, por dever, deveria estar ao alcance de todos. Em matéria de gestão pública, a obscuridade nunca é neutra. Ela sempre cobra um preço — e, quase sempre, esse preço é pago pela confiança da cidade.