Caso Marista: a volta dos que não foram

, atualizado

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A Prefeitura de Ribeirão decidiu reenviar à Câmara o projeto de permuta entre a área pública da Zona Sul e o imóvel do antigo Colégio Marista, no Centro. A nova versão tenta corrigir o ponto que mais desgastou a proposta anterior: o valor dos imóveis. Agora, a área municipal no Jardim Nova Aliança, com cerca de 41 mil metros quadrados, passou a ser avaliada acima do prédio do Marista, na rua Bernardino de Campos. Pela nova conta, a instituição privada teria de pagar cerca de R$ 29,4 milhões ao município.

No papel, o governo tenta transformar um projeto politicamente tóxico em uma operação aparentemente vantajosa. Mas a principal questão continua em aberto: uma conta nova basta para tornar bom um negócio que segue mal explicado?

A proposta original, apresentada em 2025, já havia gerado forte controvérsia. O desgaste foi tamanho que a própria prefeitura recuou e retirou o projeto em dezembro, prometendo nova análise. Agora, meses depois, o texto volta com sinal trocado e diferença milionária em favor do poder público. O problema é óbvio: se a mesma operação comporta variações tão expressivas de valuation em tão pouco tempo, o mínimo que se espera é transparência absoluta sobre critérios, metodologia e interesse público envolvido.

Não se discute apenas o preço de dois imóveis. Discute-se a estratégia patrimonial da cidade. A prefeitura quer trocar um terreno valioso na Zona Sul por um prédio central para instalar um futuro centro administrativo. É uma decisão de longo prazo, com impacto urbano, financeiro e político. Por isso, a administração tem o dever de apresentar mais do que uma nova avaliação: precisa mostrar estudo comparativo de alternativas, custo real de adaptação do prédio, impacto no trânsito e na mobilidade da região central, vantagens operacionais concretas e a razão pela qual essa solução seria superior a outras possíveis.Sem isso, a operação corre o risco de parecer menos uma política pública estruturada e mais uma aposta imobiliária conduzida de cima para baixo.

A forma política da reapresentação também pesa. O projeto voltou justamente durante as férias do prefeito Ricardo Silva (PSD), pelas mãos do prefeito em exercício Alessandro Maraca (MDB). Pode ser legal. Mas, em um tema tão sensível, a escolha do momento é ruim e amplia a desconfiança. Em vez de construir segurança institucional, o governo alimenta a leitura de que tenta reenquadrar uma proposta rejeitada aproveitando uma janela política mais conveniente.

A audiência pública marcada pela Câmara é necessária, mas não pode servir apenas como rito formal para validar uma decisão previamente tomada. O Legislativo precisa tratar essa matéria com independência e rigor. Não basta discutir se a prefeitura "ganha" ou "perde" alguns milhões na troca. É preciso responder se o município está fazendo a melhor escolha.

A crítica central, portanto, é simples: a prefeitura melhorou a embalagem do projeto, mas ainda não entregou uma justificativa pública à altura do tamanho da decisão. Se o negócio é realmente tão bom, que o governo prove isso de forma completa, técnica e transparente. Até lá, o "negócio" parece menos uma demonstração de convicção administrativa e mais uma insistência política em um projeto cercado de dúvidas.