Ribeirão precisa cobrar pela saúde que sustenta

, atualizado

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Ribeirão Preto deve se orgulhar de sua vocação regional na saúde. Como polo médico, é natural — e até desejável — que a cidade concentre serviços, especialistas e estruturas de atendimento que acabam atraindo pacientes de toda a região. Isso faz parte da lógica do SUS e do papel histórico que o município construiu. O que não pode ser naturalizado é a ausência de contrapartida financeira diante de uma demanda que cresce muito além da capacidade orçamentária local.Os sinais de sobrecarga são claros.

Dados apontam que a rede municipal tem número de cadastrados equivalente ao dobro da população da cidade, um retrato eloquente de um sistema pressionado muito além da base de contribuintes que o sustenta. A própria prefeitura divulga que mais de 10% dos atendimentos mensais das UPAs são realizados em pessoas de fora de Ribeirão. Não se trata de discutir se esses pacientes devem ou não ser atendidos. Devem. É obrigação do SUS acolher quem precisa.

O ponto central é outro: não existe gestão séria e sustentável quando a conta fica quase integralmente com o cidadão ribeirão-pretano, enquanto outros municípios tratam o transporte em vans como política pública de saúde.Esse modelo é cômodo para cidades vizinhas e injusto para Ribeirão. Em vez de investir na ampliação de sua própria estrutura, muitos municípios preferem empurrar a demanda para quem já tem hospital, UPA, equipes e retaguarda. O resultado é previsível: filas maiores, espera prolongada, desgaste das equipes, custo crescente e pressão permanente sobre uma rede municipal que já opera no limite. Ribeirão vira referência regional na prática, mas sem o reconhecimento financeiro compatível com essa função.

É justamente aí que a cidade precisa endurecer sua posição institucional. O encaminhamento de pacientes deve vir obrigatoriamente acompanhado de repasse financeiro. Não por egoísmo, não por fechamento regional, mas por responsabilidade administrativa. O financiamento precisa seguir o paciente. Se Ribeirão atende, Ribeirão precisa receber. Sem isso, a conta continuará sendo paga por quem mora aqui, recolhe impostos aqui e depende da mesma estrutura que está sendo usada por uma população flutuante cada vez maior.A defesa dessa compensação não afronta o SUS; ao contrário, fortalece sua lógica federativa. O sistema público de saúde pressupõe cooperação, e cooperação não é sinônimo de omissão de um lado e sacrifício do outro. Se Ribeirão exerce papel regional, os municípios que se beneficiam dessa estrutura e os entes responsáveis pelo financiamento precisam assumir sua parte.

O que não é aceitável é manter a ficção de que tudo pode continuar como está, enquanto a rede municipal absorve demanda externa sem o dinheiro correspondente.Ribeirão precisa lutar por isso com firmeza política, técnica e institucional. A cidade não pode abrir mão de atender, mas também não pode aceitar calada um modelo que pune sua população pela eficiência que construiu ao longo do tempo. Defender repasse financeiro por atendimento regional não é negar assistência. É defender que ela continue existindo com qualidade, equilíbrio e justiça.