Imprensa e terceiro setor, é preciso fazer um mea culpa

, atualizado

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'MEA CULPA, mea maxima culpa'. A expressão, que tem origem na igreja católica e que atravessou séculos como forma clássica de admitir erro e responsabilidade, cabe aqui como confissão pública de uma falha institucional: a imprensa e o terceiro setor em Ribeirão Preto têm deixado de fiscalizar com rigor o que deveria ser escrutinado sem complacência, como bem demonstra a deprimente situação de negociatas e bravatas nos Poderes da cidade.

E é exatamente nesse contexto que a frase latina nos cabe perfeitamente: na crítica às instituições de Ribeirão Preto, sobretudo à imprensa e ao terceiro setor, que continuam, em muitos casos, a funcionar mais como antecâmara de interesses espúrios do que como instâncias de apuração, cobrança e defesa do interesse público. Quando deveriam investigar com rigor os malfeitos que atravessam a vida política da cidade, parte dessas instituições prefere a conveniência, a prudência excessiva ou o silêncio — e isso cobra um preço alto da democracia.Ribeirão sempre cultivou a imagem de cidade de instituições fortes, modernas e influentes.

A teórica força formal não tem se convertido, na prática, em coragem institucional. O Legislativo acumula denúncias e processos que se arrastam; o Executivo muitas vezes responde aos problemas públicos com medidas tardias ou insuficientes; o Judiciário, embora essencial, por vezes transmite a sensação de lentidão incompatível com a gravidade dos fatos. No terceiro setor, que deveria ser ponte entre sociedade e fiscalização, e na imprensa, que deveria incomodar o poder, a cidade vê com frequência o contrário: alinhamento, repetição de versões oficiais e pouca disposição para seguir a trilha dos fatos até o fim.

Os exemplos se multiplicam. Escândalos se naturalizam. Casos de suspeita de corrupção, rachadinha, má gestão de contratos e desvios de conduta são tratados como se fossem parte do cenário, não como exceção intolerável. A cada novo episódio, repete-se a mesma cena: muita declaração, pouca consequência; muito discurso, pouca apuração; muita aparência de vigilância, pouca vigilância de fato. E quando instituições se acomodam assim, deixam de cumprir sua função e passam a alimentar a própria erosão da confiança pública.

O Jornal Ribeirão nasceu, muito, de um profundo inconformismo com essa forma de fazer jornalismo. Denunciar as mazelas não é apenas resultado de um jornalismo combativo, mas sim uma obrigação imposta pela busca incessante da transparência. Infelizmente, nem todos comungam dos mesmos ideais ou executam o mister com a mesma determinação.

O resultado é um ambiente em que a democracia vai perdendo densidade. Porque democracia não vive de aparência institucional, nem de notas protocolares, nem de indignação seletiva. Ela depende de independência, coerência e coragem para investigar o que incomoda.

Sem isso, o que sobra é um sistema que se protege, se repete e se esvazia. E quem perde com isso, no fim das contas, é a democracia.