Compartilhar notícia
A cassação de Lincoln Fernandes (PL), decidida por unanimidade pela Câmara de Ribeirão nesta terça-feira, encerra um capítulo degradante da política local e, ao mesmo tempo, abre outro ainda mais inquietante.
O primeiro é o da velha prática da rachadinha, esse método sórdido de privatizar salário público dentro do gabinete, como se mandato fosse balcão e assessor fosse fonte de arrecadação pessoal. O segundo é o do desfecho explosivo escolhido pelo agora ex-vereador: cair atirando, com a divulgação de um vídeo em que lança acusações gravíssimas contra o colega de partido Isaac Antunes, ex-presidente da Câmara, a quem atribui práticas criminosas e direcionamento político em seu processo de cassação.
A perda do mandato de Lincoln não deve surpreender ninguém que tenha um mínimo de compromisso com o decoro e com a inteligência do eleitor ribeirão-pretano. Ribeirão mudou. O eleitor mudou.
A cidade já viu escândalos demais para continuar tolerando, com naturalidade bovina, práticas tão nefastas. A sociedade amadureceu o suficiente para saber que rachadinha não é detalhe, não é "questão interna de gabinete", não é "modo de fazer política". É desvio moral, é apropriação indevida da estrutura pública, é corrupção do mandato em sua forma mais mesquinha e mais covarde. Mas seria igualmente covarde fingir que as acusações finais de Lincoln são irrelevantes apenas porque partiram de um homem politicamente derrotado. Não são. Ao contrário: são gravíssimas. E exatamente por isso precisam ser tratadas com seriedade institucional.
Se o vereador cassado mentiu, que responda também por isso. Se falou a verdade, ainda que em seu talvez último ato de sobrevivência política, então o que veio à tona é devastador e exige reação imediata do Legislativo. Não há meio-termo digno.É preciso dizer com clareza: as práticas que Lincoln atribui a Isaac, se amparadas por provas efetivas, são tão inaceitáveis quanto a própria rachadinha que destruiu sua trajetória política. Direcionar processo, manipular ambiente institucional, usar poder interno para perseguir ou blindar quem quer que seja — tudo isso envenena a democracia local com a mesma toxicidade moral.
A Câmara não pode escolher qual deformação ética quer combater e qual prefere empurrar para debaixo do tapete.O ponto central é este: não existe regeneração da política sem coerência. Cassar um vereador por quebra de decoro e, ao mesmo tempo, ignorar denúncias gravíssimas feitas contra outro agente político seria trocar a limpeza pela encenação. Ribeirão Preto não precisa de teatro moral. Precisa de exemplo. E exemplo, neste caso, significa apuração séria, rápida e transparente de tudo o que foi dito.Lincoln caiu porque o eleitor de Ribeirão já não aceita mais esse tipo de prática. Mas, se as acusações finais que ele fez tiverem lastro real, não pode cair sozinho no abismo da desmoralização.
A Câmara tem agora a chance de mostrar que aprendeu alguma coisa com a própria vergonha — ou de provar, mais uma vez, que só pune quando a conveniência permite.