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A advocacia é uma das colunas mais sensíveis do Estado de Direito. É o advogado quem leva a voz de quem não consegue ser ouvido, quem transforma conflito em processo, quem impede que a força bruta substitua a regra. Por isso, quando um profissional da área abandona a ética e passa a operar como corretor da fraude, o estrago não é apenas individual: é institucional.
Foi exatamente essa a marca deixada por esquemas revelados em Ribeirão Preto, como a Operação Têmis, que desbaratou um grupo investigado por fraudes judiciais, ações em nome de falsos correntistas e uso indevido da estrutura do sistema para arrancar dinheiro de vítimas que muitas vezes nem sabiam que estavam sendo arrastadas para um processo.
O mesmo esquema, inclusive, que também atuou em conluio com o Poder Legislativo - é preciso lembrar que, na primeira edição da Operação, o vereador Isaac Antunes (PL) admitiu expressamente a prática de crimes eleitorais, utilizando os dados captados irregularmente pelos advogados criminosos para captação irregular de votos.
Em investigações posteriores, o caso continuou gerando condenações e reforçando a gravidade do que aconteceu: quando a liturgia do Direito é usada para legitimar o golpe, a fraude ganha aparência de normalidade.É aí que mora o problema mais profundo.
A advocacia não é só uma profissão; é uma função pública essencial, ainda que exercida na iniciativa privada. O advogado não representa apenas um cliente. Ele representa a confiança mínima de que o conflito será submetido à lei, e não à picaretagem, ao conluio ou à esperteza disfarçada de técnica. Quando alguém da profissão se associa ao esquema, ataca justamente aquilo que deveria proteger.E o prejuízo recai, quase sempre, sobre os mais vulneráveis.
São idosos, consumidores, trabalhadores, aposentados, pessoas que confiam na assinatura de um contrato, na palavra de um representante, no papel timbrado, no argumento jurídico bem montado. A fraude, nesses casos, não é só financeira. Ela é moral, institucional e simbólica. Ferir esse público já seria grave. Ferir a confiança no Direito é pior ainda.Por isso, o debate não pode ser tratado como mera exceção ou desvio isolado.
Que a OAB, muitas vezes inerte e dormindo em berço esplêncido quando se trata de exercer punições severas aos malfeitos da advocacia, acorde de seu sono e "corte na carne", bem como as demais instituições cumpram seus deveres. Casos assim exigem responsabilização rigorosa, punição exemplar e vigilância permanente. Porque cada advogado que transforma sua banca em balcão de fraude ajuda a corroer a credibilidade de toda a classe.
E quando a advocacia perde autoridade moral, perde o país inteiro.O Direito só se sustenta quando é instrumento de proteção. Quando passa a ser ferramenta de golpe, deixa de ser Justiça e vira apenas encenação.