Quando a falta de apuração vira escracho público

, atualizado

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Ribeirão Preto vai se acostumando a uma paisagem política que deveria causar espanto, mas já começa a ser tratada como rotina: vereadores, assessores e autoridades surgindo em inquéritos, representações e denúncias, enquanto a reação institucional da Câmara oscila entre a demora, o constrangimento e a vontade evidente de enterrar sujeira.

O problema já não é apenas a gravidade de um caso isolado. É a sucessão deles. É a repetição. É a sensação de que a Casa perdeu o pudor de responder com firmeza. O Jornal Ribeirão tem registrado essa escalada com clareza, mostrando como o ambiente político da cidade vai se tornando cada vez mais tolerante ao intolerável.

O caso de Jean Corauci (PSD) é emblemático. A Câmara rejeitou a representação por quebra de decoro envolvendo o uso de carro oficial durante o recesso, em viagem familiar, com informação divergente em documento oficial sobre a permanência do veículo em Ribeirão. Formalmente, pode haver explicações e contestações. Politicamente, porém, o recado é outro: o de que parte dos vereadores prefere proteger o colega antes de proteger o padrão ético que deveria reger a Casa.

É justamente aí que mora o desgaste. Quando o Legislativo escolhe relativizar, arquivar ou minimizar situações que exigiriam apuração dura, ele não pacifica o ambiente. Apenas adia a conta. E a conta, em política, sempre chega mais cara: em desconfiança, em descrédito e em perda de autoridade moral. A Câmara não pode fingir que está tudo normal quando a cidade vê, a olhos nus, uma sucessão de episódios que corroem a imagem pública da instituição.

O caso de Bigodini (MDB), que deverá voltar, na semana que vem, ao Legislativo, também acompanhado de perto pelo Jornal Ribeirão, reforça essa percepção. O retorno de um vereador afastado sob forte desgaste, em meio a fatos graves já conhecidos pela opinião pública, não é apenas um rito administrativo. É um teste para a Câmara e para sua capacidade de responder a crises sem recorrer ao velho conforto do esquecimento institucional.

No caso de Lincoln Fernandes (PL), a mesma lógica se repete: enquanto o processo avança e as denúncias ganham corpo, cresce nos bastidores a tentação de acomodar o problema em vez de enfrentá-lo de frente.A sucessão desses episódios vai criando uma pedagogia perversa: o político é denunciado, o caso gera barulho por alguns dias, os pares administram a crise e, no fim, tudo volta ao compasso da conveniência. É assim que o inquérito deixa de ser exceção e passa a compor o cenário.

Assim que o escândalo perde força. E é assim que a Câmara vai se afastando da função mais básica de uma instituição pública: dar exemplo.Ribeirão precisa cobrar mais. E o jornalismo local, quando faz bem seu trabalho, ajuda a cidade a não normalizar o absurdo. Se a denúncia existe, que haja apuração.

Se a defesa é sólida, que seja apresentada com transparência. O que não dá mais é aceitar que a sucessão de casos graves termine sempre da mesma forma: com silêncio, arquivamento e memória curta. Como, de resto, vem sendo a tônica do Poder Público em Ribeirão nas últimas décadas.