Quando o ódio atravessa o portão da escola

, atualizado

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A decisão judicial, que determinou a remoção de vídeos, proibiu novas gravações e impediu o ingresso não autorizado do influenciador Hagara do Pão de Queijo em uma escola municipal de Ribeirão Preto não é apenas um despacho. É um alerta institucional. Um daqueles que expõe, com nitidez incômoda, até onde parte do radicalismo brasileiro está disposta a ir: instrumentalizar uma criança de 11 anos para fabricar narrativa ideológica.

O caso é simples e grave. Uma aluna, amparada pela legislação brasileira, utiliza nome social e banheiro feminino. Isso não é opinião — é direito fundamental, reforçado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pela jurisprudência consolidada do país. Mesmo assim, um adulto decidiu converter essa situação em palco, invadir o ambiente escolar, filmar sem autorização e publicar conteúdo distorcido e carregado de transfobia. Tudo isso sob o pretexto de "denúncia", quando, na prática, o que ocorreu foi exploração de uma menor e disseminação de discurso de ódio.

O Judiciário viu exatamente o que aconteceu: uma violação direta à dignidade de uma criança e ao dever constitucional de proteção integral. Quando um tribunal precisa dizer o óbvio — que criança não é material de campanha — significa que a fronteira civilizatória foi ultrapassada.

Saliente-se, ainda, que a forma de ação não é exclusiva de Hagara. O vereador Isaac Antunes (PL), então presidente da Câmara, também utilizou expediente semelhante em escola municipal, questionando a elaboração de cartazes alusivos à causa LGBT nas escolas.

E aqui está a questão central: não há liberdade de expressão que legitime a violência moral contra menores. Não há "debate público" que permita a alguém transformar uma menina em munição política. Não há "preocupação com a família" que autorize terror psicológico, humilhação e linchamento digital.

Obviamente o tema tem que ser debatido com a comunicade escolar, e é salutar que as divergências de opiniões, inclusive preservado o direito de outros alunos e pais de se expressarem, é primordial. Mas tudo isso tem que ocorrer dentro do respeito inegociável aos direitos da menor.

O que ocorreu naquela escola não é bravura, não é ativismo, não é fiscalização cidadã. É abuso. É coação. É ódio com alvo definido.

Ribeirão Preto, uma cidade que já teve nomes de peso na educação e na política, não pode normalizar que influenciadores ou aspirantes ao cargo público entrem em escolas como quem invade um palco, armados de celulares e desinformação.

A decisão judicial impõe limites — e limites são saudáveis para qualquer sociedade que ainda se pretende democrática. E mais: reafirma que crianças trans existem, têm direitos e merecem segurança. Que isso ainda precise ser dito em 2026 é um retrato preciso do retrocesso moral de certos grupos.

Mas editorial não é só diagnóstico. É também compromisso. O compromisso do Jornal Ribeirão é claro: vamos seguir cobrindo cada caso em que a integridade de crianças e adolescentes for atacada por militância disfarçada de opinião. Vamos continuar mostrando que transfobia não é opinião, é violência. E vamos lembrar, quantas vezes for necessário, que ninguém — absolutamente ninguém — está acima da lei.

Porque, no fim das contas, a questão não é sobre banheiro. É sobre humanidade. E quem perde isso de vista não está defendendo valores; está apenas espalhando barbárie.