A guerra fratricida e a podridão do Legislativo

, atualizado

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A guerra entre vereadores, com direito a trocas públicas de farpas e até "gabinete do ódio", de ambos os lados, escancara a podridão que se instalou nos corredores do Legislativo e, paradoxalmente, cumpre ao menos o papel de expor o que antes se escondia.

O problema não é o conflito em si, mas o que ele revela.

O confronto fratricida entre Isaac Antunes (PL) e Lincoln Fernandes (PL) - que até pouco tempo se fartavam na mesma mesa - lançou luz sobre um ambiente marcado por negociatas, práticas questionáveis e pela reiterada sensação de impunidade. O que emerge desse embate não é um desvio isolado, mas um retrato sistêmico. Necessário, mas triste, que nos chafurdemos na lama que os nobres edis de Ribeirão insistem em nos propiciar.

E práticas questionáveis e pela reiterada sensação de impunidade. O que emerge desse embate não é um desvio isolado, mas um retrato sistêmico.

Tão preocupante, entretanto, é o silêncio ensurdecedor dos outros 20 parlamentares que, com o perdão da má palavra, a tudo assistem com "cara de bunda", como se nada tivessem a ver com o ambiente que ajudaram a construir — ou, no mínimo, a tolerar. A mesma estrutura que hoje atinge um vereador é a que sustenta o funcionamento cotidiano do Legislativo.

Não se trata, portanto, de um embate individual. Trata-se de um padrão. Isaac e Lincoln representam o que acontece de mais pobre na Câmara de Ribeirão, mas, em épocas normais, é mantido entre os pares. A mesma mesa posta para Lincoln, de onde ameaçam retirá-lo, também serve aos outros parlamentares que, no mínimo, prevaricam, coniventes com os malfeitos.

A rede de informação dos parlamentares é vasta e abastece continuamente jornalistas, pseudojornalistas e "influenciadores" — todos, ao que tudo indica, com seu devido soldo, prontos a difundir as verdades seletivas de quem mais paga. Até a imprensa, que, com raríssimas exceções, parece "bem alimentada" e pouco inclinada a repercutir o caso, termina por reforçar o cheiro podre da falta de transparência e da picaretagem institucionalizada, com roupagem de Poder constituído.

A população de Ribeirão acompanha atônita, ainda sem reação proporcional à gravidade do que se apresenta. As implicações desse cenário ultrapassam o Legislativo e alcançam a própria administração municipal, contaminando a percepção pública sobre o funcionamento das instituições.

As vísceras do Poder instalado à Jerônimo Gonçalves seguem abertas, jorrando podridão. Resta saber se haverá reação institucional — por parte dos órgãos de controle, da própria Câmara ou da sociedade — ou se a cidade seguirá assistindo, inerte, à normalização do inaceitável.