9 de Julho: um retrato do desperdício de dinheiro público

, atualizado

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Ribeirão Preto conseguiu o improvável: transformar uma das principais obras de mobilidade urbana da cidade em um símbolo de frustração coletiva. A avenida 9 de Julho, que passou anos fechada, consumiu recursos públicos e paciência da população, volta ao noticiário — não como solução, mas como problema.

E não é um problema pequeno.

Pouco tempo após a reabertura, a via já apresenta sinais de falhas estruturais, pontos de desgaste e indícios de que aquilo que foi entregue está longe de ser definitivo. Em outras palavras: a obra que prometia resolver um gargalo histórico virou mais um capítulo da velha rotina de improviso e remendo.

É inaceitável.

Não se trata de um bueiro entupido ou de um buraco pontual. Trata-se de uma intervenção complexa, que ficou anos em execução justamente sob o argumento de que seria feita "da forma correta", com soluções duradouras para drenagem, mobilidade e segurança viária. O mínimo que se esperava era estabilidade — e não recaída.

O que se vê hoje levanta dúvidas inevitáveis: houve falha de projeto? Execução mal feita? Fiscalização frouxa? Ou tudo isso junto?

A população, que enfrentou desvios, trânsito caótico e prejuízos ao comércio local por anos, não pode agora ser condenada a conviver com uma obra que já nasce envelhecida. Pior: com o risco de novos gastos públicos para corrigir aquilo que deveria ter sido entregue pronto.

E vale aqui incluir a atual gestão, que se encaminha para a metade, nas criticas. Embora o projeto e a administração da obra pertençam à gestão Duarte Nogueira, o prefeito Ricardo Silva (PSD) não se escusou de assumir os louros na entrega. Que fique, também, com os ônus da obra porca entregue e arranje soluções - o que não conseguiu até o momento.

Por sinal, a situação é o retrato clássico da obra pública brasileira mal resolvida: demora para começar, demora para terminar e, quando termina, não termina de verdade.

A 9 de Julho não é uma rua qualquer. É um dos eixos estruturantes da cidade. Se ali a engenharia falha, a mensagem é clara — o problema não é pontual, é sistêmico.

Falta transparência sobre o que está acontecendo. Falta explicação técnica. Falta responsabilização.

Quem executou a obra precisa explicar. Quem fiscalizou precisa responder. Quem recebeu precisa justificar. Porque, até agora, o que Ribeirão ganhou de verdade foi uma conta alta — e um problema de volta.

E a sensação que fica é a pior possível: a de que a cidade segue presa em um ciclo de obras intermináveis, onde se gasta muito, resolve pouco e, no fim, tudo volta ao ponto de partida.

A 9 de Julho não pode virar mais um monumento ao desperdício. Já passou da hora de tratar a infraestrutura urbana com a seriedade que ela exige — e que a população paga.