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Ribeirão Preto voltou a assistir, nos últimos dias, a cenas que deveriam estar enterradas no passado: avenidas transformadas em rios, carros ilhados, lixo descendo em correnteza como se a cidade tivesse desistido de si mesma. Não se trata de um evento isolado — trata-se de um padrão. E, pior, de um padrão conhecido.
As chuvas recentes, com acumulados expressivos — 84 milímetros em apenas 48 horas, segundo a própria Prefeitura — foram suficientes para expor, mais uma vez, a fragilidade da zeladoria urbana e da drenagem da cidade . Alagamentos se repetiram em diferentes regiões, com impactos relevantes na malha urbana e na rotina da população.
Mas o problema não é — nunca foi — apenas a chuva.
Reportagens recentes mostram que o córrego Ribeirão Preto sofre com ocupação irregular, acúmulo de lixo e falhas estruturais, fatores que agravam diretamente os alagamentos . Em outras palavras: o desastre não começa no céu, começa no chão — ou melhor, na falta de cuidado com ele.
E foi justamente isso que se viu, de forma escancarada, na região central. Na área da Avenida dos Andradas, imagens de enxurradas carregando montanhas de lixo viralizaram. Não é apenas um retrato da chuva — é um retrato da negligência. É inadmissível que uma cidade do porte de Ribeirão Preto naturalize rios de resíduos urbanos correndo a céu aberto.
Não se pode tratar como "evento extremo" aquilo que já virou rotina.
A atual gestão se aproxima da metade do mandato sem apresentar qualquer medida estrutural capaz de enfrentar o problema de forma definitiva. Há ações emergenciais, forças-tarefa, limpeza após o desastre — tudo necessário, mas insuficiente. É a lógica de sempre: correr atrás do prejuízo em vez de evitar que ele aconteça. E isso já deveria ter mudado.
Porque Ribeirão Preto sabe — e já provou — que é possível enfrentar enchentes com planejamento e investimento. O último grande avanço nesse sentido remonta às obras anti-enchente viabilizadas com recursos obtidos ainda na administração de Welson Gasparini e executadas na gestão de Dárcy Vera, especialmente entre 2008 e 2009. Naquele momento, o problema foi atacado com seriedade e técnica. Houve intervenção, houve resultado. De lá para cá, o que se vê é a cidade enxugando gelo.
Sem continuidade de investimentos estruturais, sem ampliação consistente do sistema de drenagem e, sobretudo, sem uma política eficaz de zeladoria urbana — que inclui limpeza, manejo de resíduos e fiscalização — o cenário voltou a se deteriorar. O lixo voltou para as ruas. As bocas de lobo voltaram a entupir. E a água voltou a cobrar a conta.
Não se trata apenas de infraestrutura, mas de gestão.
A crise das enchentes é, antes de tudo, uma crise de prioridade. Quando a cidade convive com lixo acumulado, terrenos abandonados e córregos assoreados, o resultado é previsível — e evitável. A repetição dos episódios recentes deixa claro que não falta diagnóstico. Falta decisão.
Já passou da hora de a atual administração chamar para si a responsabilidade de resolver o problema. Não como discurso, não como reação pontual, mas como política pública consistente, contínua e mensurável. A população não precisa de explicações a cada nova chuva. Precisa de soluções antes da próxima. Porque, enquanto o poder público hesita, a cidade afunda — de novo, e sempre no mesmo lugar.