A institucionalização das rachadinhas

, atualizado

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A política em Ribeirão Preto não está apenas em crise — está sob suspeita. A mais recente denúncia de rachadinha envolvendo o vereador Lincoln Fernandes (PL), líder do governo na Câmara Municipal, ultrapassa a mera especulação e coloca, em xeque, a integridade do Legislativo local e a confiança da população na coisa pública.

A acusação, tornada pública por Hágara do Pão de Queijo e protagonizada por ex-assessores, aponta extratos bancários e depoimentos indicando que parte dos salários pagos a servidores retornava ao parlamentar — prática ilegal que representa corrupção interna, esvaziamento da função pública e bullying institucional contra quem sustenta os próprios salários.

Além disso, há um pedido de cassação de mandato tramitando na própria Câmara, sinal claro de que o escândalo já saiu do terreno dos boatos e agora está na fronteira entre a política e a Justiça.

Há quem diga que Lincoln Fernandes já está preso e cassado no Japão, uma brincadeira em referência à frase "Já é ano novo no Japão", que sempre celebra o ano novo antes dos brasileiros, estando horas à frente do nosso fuso. Devido à gravidade do material, o cenário é provável. Sérgio Zerbinato, ex-vereador já condenado pelo mesmo crime em primeira instância, teve processo com conjunto probatório bem menos denso, por exemplo.

O que se observa, porém, é a mesma velha resposta burocrática: silêncio de quem é acusado, movimentos lentos de quem deveria agir, e uma Câmara que claramente ainda não entendeu que a paciência da sociedade com práticas obscuras terminou. A política local não pode ser tratada como quintal onde se varrem suspeitas para debaixo do tapete. Ribeirão não merece isso.

O episódio, entretanto, soma-se a casos anteriores protagonizados pelos vereadores, inclusive com inquéritos e denúncias sobre outros casos de rachadinha e revela um problema institucional complexo e gravíssimo.

Não bastando a situação, de resto assustadora, tem-se ainda um clima de guerra fria entre vereadores que já complica a articulação de medidas importantes e obstrui projetos essenciais para a cidade — o que revela que o problema não é apenas moral, mas institucional.

Não se trata apenas de apontar dedos isolados. Trata-se de exigir transparência, ética e responsabilidade. Não basta afirmar inocência na tribuna. É preciso que Lincoln Fernandes explique, com documentos e clareza, o que ocorreu, como ocorreu e por que ocorreu.

E que o Ministério Público — assim como a Câmara — atuem com rapidez e independência, sem condescendência com o poder em nome de acordos partidários ou conveniências eleitorais.

O eleitor ribeirão-pretano não é idiota. Ele vê que termos como rachadinha já deixaram de ser escândalo periférico para se tornarem sinônimo de corrupção que corrói a confiança no serviço público em todos os níveis. Se a política vai sobreviver à indignação pública, seus protagonistas precisam compreender que a tolerância acabou.

Em Ribeirão Preto, o silêncio institucional diante de acusações tão graves é tão grave quanto a acusação em si.