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A decisão recente da Justiça que determinou a retirada do vídeo em que o prefeito Ricardo Silva (PSD) anuncia, de forma pública e informal, em material postados em sua rede socil, a demissão do gestor da UPA Oeste recoloca um debate que a própria administração municipal ajudou a acirrar: o limite do uso das redes sociais como instrumento de gestão e de exposição de servidores.
Como mostrou o Jornal Ribeirão, o vídeo foi gravado durante uma visita à unidade de saúde e divulgado nas redes do prefeito, funcionando, na prática, como um ato administrativo encenado para o público. Isso sem falar na acusação, feita pelo demitido, de encenação pura e simples, na medida em que o gestor afirma ter sido demitido no período anterior à gravação.
Qualquer que seja o cenário, tem-se que aa gestão da UPA está - ou deveria estar - submetida a contratos e ritos formais que não se resolvem por postagem ou vídeo de impacto.
A decisão judicial não discute se havia ou não falhas na unidade. O foco é o método: transformar um procedimento administrativo — que exige apuração, formalização e contraditório — em conteúdo digital de alcance imediato. É nesse ponto que surge uma contradição difícil de ignorar.
Nos últimos meses, a Prefeitura e o próprio prefeito ingressaram com ações judiciais, amplamente noticiadas pelo Jornal Ribeirão, contra vídeos publicados por Hágara do Pão de Queijo pedindo justamente a retirada de vídeos críticos o prefeito e à administração do ar. O argumento central dessas ações é o suposto dano à imagem de servidores públicos e a exposição indevida de funcionários nas redes sociais.
Ocorre que o vídeo do prefeito - feito, inclusive, no início da gestão, portanto anterior aos de Hágara - segue a mesma lógica que a administração passou a condenar judicialmente. Enquanto acusa terceiros de promover constrangimento público, o chefe do Executivo utilizou suas próprias redes para expor um gestor em uma situação de responsabilização pública, ainda que sem citá-lo nominalmente.
Mais do que isso, Ricardo causou dano ao erário, na medida em que a Fundação Santa Lydia, contratante do demitido, firmou um acordo na Justiça do Trabalho no qual aceitou indenizar o gestor em R$ 25 mil. O que será feito a esse respeito?
Ao determinar a retirada do conteúdo, a Justiça aplicou o mesmo critério que a Prefeitura reivindica quando se sente atingida. Se vídeos que expõem servidores causam dano e devem ser retirados do ar, o princípio não pode variar conforme o autor da postagem.
O episódio revela uma dificuldade recorrente da gestão em separar fiscalização de espetáculo e comunicação institucional de performance política. Quando a exposição parte do poder, chama-se transparência; quando vem de fora, vira ataque.
Ao fim, o caso da UPA Oeste deixa uma lição incômoda: quem escolhe as redes como vitrine permanente precisa aceitar que as regras valem para todos — inclusive para quem governa.