Nove de Julho: quando a pressa cobra a conta

, atualizado

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A situação da Avenida Nove de Julho expõe, mais uma vez, um vício recorrente da administração pública: a pressa para inaugurar, sem o mesmo rigor para garantir qualidade e durabilidade. Uma obra entregue com estardalhaço, antecipação de prazo e discurso de eficiência, mas que começou a apresentar problemas graves antes mesmo de completar seis meses de uso. E isso não é detalhe técnico: é falha de execução.

A própria Prefeitura foi obrigada a notificar a empresa responsável após vistoria constatar irregularidades no pavimento de paralelepípedos e pontos de erosão na via. Com as recentes chuvas, o local, notadamente no cruzamento da rua Sete de Setembro com a avenida, alagou tanto que chegou a parecer um ribeirão.

Chama a atenção o fato de uma obra tão recente, aceita formalmente pelo município, já demandar correções estruturais. A pergunta que se impõe é simples e incômoda: por que a Prefeitura deu como concluída uma obra que claramente não estava pronta?

É verdade que o projeto da Nove de Julho atravessou gestões. A obra foi iniciada no governo anterior, a cargo do ex-prefeito Duarte Nogueira, e marcada por erros de planejamento, paralisações e troca de empresas. Esse histórico não pode ser ignorado. Mas tampouco serve de álibi para a atual administração, que optou por acelerar a entrega e capitalizar politicamente a conclusão, assumindo a responsabilidade pelo aceite técnico da obra.

Da mesma forma como ocorreu, reiteradamente, durante a gestão Nogueira, a atual administração aceitou a entrega de uma obra com claros problemas estruturais e técnicos. Cabe a pergunta: por qual motivo?

Aceitar uma intervenção dessa magnitude sem garantir sua qualidade mínima é erro grave. Não basta dizer, agora, que a empresa será obrigada a corrigir os problemas dentro do prazo de garantia. O dano já está feito: transtorno à população, risco à segurança viária e desconfiança quanto ao zelo com o dinheiro público.

A pressa em concluir a Nove de Julho contrasta com a lentidão em outras frentes igualmente importantes. Falta equilíbrio. Bom gestor não dorme no ponto, mas também não atropela ritos, fiscalização e critérios técnicos em nome de discurso fácil e vídeo institucional. Ou de publicidade disfarçada de conteúdo no tiktok.

Ao cidadão pouco importa se o problema será resolvido "sem custo adicional". O que importa é saber por que se aceitou uma obra mal executada e quem responde por isso. A gestão anterior deve explicações pelo projeto problemático. A atual, pelo aceite apressado.

Ribeirão Preto não precisa de inaugurações apressadas nem de correções recorrentes. Precisa de planejamento, fiscalização rigorosa e responsabilidade institucional. Pressa, em obra pública, quase sempre cobra juros altos — e quem paga é a cidade.