O Curioso Apreço de Lula ao Trabalho de Damares Alves
Contra emendas impositivas; maus feitos de igrjas evangelicas; transexualidade; porque a Senadora é considerada camisa 7 do time de Lula
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Damares Alves é cidadã ribeirão-pretana por título concedido pela Câmara Municipal, advogada, pastora evangélica e política, que ganhou projeção nacional como Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no governo Bolsonaro (2019–2022). Em 2022, foi eleita senadora pelo Distrito Federal pelo Republicanos, atuando em frentes como segurança pública, direitos das crianças, combate à violência e direitos humanos.
No Executivo, sua atuação foi bastante confusa marcada por forte viés religioso, misturando púlpito e ministério, convicções pessoais e políticas públicas, em defesa ferrenha da "família" do então presidente e de uma agenda conservadora rígida. A confusão entre o público e o privado, o Estado e a fé, a política e o sermão renderam críticas generalizadas, consolidando sua imagem como uma das figuras mais controversas e pitoresca do bolsonarismo.
No Senado, porém, a personagem começou a sofrer mutação. À frente da Comissão de Direitos Humanos (CDH), Damares passou a adotar posições que desagradam a direita militante e parte do próprio Republicanos, mas despertam uma curiosa simpatia em setores progressistas e até apreço emocional no entorno do presidente Lula.
Igrejas e o “pecado” do desconto no INSS
A principal frente dessa virada está na atuação de Damares na CPMI que investiga fraudes e desvios envolvendo o INSS, com foco em descontos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas. A senadora declarou que as investigações encontraram fortes indícios da participação de “grandes igrejas” e “grandes pastores” em esquemas que utilizam a influência religiosa para empurrar empréstimos consignados e autorizar descontos indevidos em folha.
Segundo Damares, templos e lideranças religiosas teriam servido como canais de captação de idosos, abordados em ambiente de culto e orientados a aderir a contratos que muitos sequer compreendiam — mas que resultaram em débitos mensais sobre benefícios já apertados. Ela relata que, à medida que esses nomes começaram a aparecer, a CPMI passou a sofrer pressões e lobbies para frear as apurações, em uma tentativa de blindar a imagem de igrejas influentes e de pastores midiáticos que orbitam a política nacional.
A própria senadora admite que se sente “machucada” ao ver grandes igrejas brasileiras apontadas nas investigações, mas insiste que a CPI “vai até o fim”, mesmo com reações de dentro do campo evangélico e de estruturas financeiras que lucram com consignados e descontos automáticos. Nesse processo, a pastora que sempre foi símbolo da bancada evangélica passa, ironicamente, a expor o lado nada santo da fusão entre fé, dinheiro e política, o que provoca desconforto intenso na direita religiosa.
Emendas, Lula e o apreço inesperado
Outro ponto que ajuda a explicar o “apreço envergonhado” da esquerda é a disposição de Damares em questionar o modelo de emendas parlamentares impositivas. Ela já afirmou que pretende apresentar proposta para rediscutir esse sistema, que hoje obriga o governo a executar recursos indicados pelo Congresso, lembrando que desde 2004 e 2005, quando ainda era assessora, se dizia indignada com o mecanismo.
No âmbito da Comissão de Direitos Humanos, a senadora relatou a avaliação do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), apontando defasagens e sugerindo atualização do programa para refletir os desafios contemporâneos, com mais integração de dados e maior capacidade de acompanhamento e fiscalização. Esse tipo de pauta dialoga diretamente com bandeiras históricas do campo progressista e com a prioridade que o governo Lula dá à agenda de direitos humanos, gerando, no mínimo, respeito técnico à atuação de Damares.
Mais recentemente, ganhou destaque um projeto relatado por ela que prevê a elaboração de relatório bienal com dados oficiais sobre violência contra mulheres, institucionalizando um instrumento importante para desenho de políticas públicas. É o tipo de iniciativa que o Planalto não apenas não combate, como vê com bons olhos — e que, claro, causa torcicolo em antigos parceiros de guerra cultural que a preferiam atacando “ideologia de gênero” em vez de fortalecendo instrumentos de proteção das mulheres.
Para completar as rusgas com o conservadorismo Damares expressou uma posição considerada "surpreendente" por alguns, ao se dizer a favor de cotas sociais e ações de empregabilidade para pessoas trans e travestis, justificando que são um grupo duplamente vulnerável, que sofre com pobreza e exclusão do mercado de trabalho formal. Não chegou a não reconhecer a transexualidade no sentido de apoiar a "ideologia de gênero", mas o assunto causou calafrios junto ao conservadorismo e o movimento evangélico simplesmente foge do assunto.
“Fica a dica, Flávio”: a vice mulher
Se a esquerda observa com certa curiosidade e satisfação esse reposicionamento, a direita tem colecionado motivos para irritação. Um dos episódios mais simbólicos foi a declaração de Damares em entrevista ao SBT News, na qual apontou a fragilidade da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência em 2026 no eleitorado feminino.
A senadora lembrou que a direita perdeu terreno entre as mulheres nas últimas eleições e que o campo conservador insiste em confundir demandas femininas com inimigos ideológicos. Em seguida, fez um apelo público para que Flávio escolha uma mulher como vice em sua chapa, afirmando que isso poderia “mudar muito” a proposta da campanha e que o voto feminino precisa ser conquistado “com leveza e ternura”.
O recado, travestido de conselho, foi visto internamente no PL como um gesto de impertinência: dirigentes do partido e aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro não gostaram de ver Damares expondo, em rede nacional, a fragilidade estratégica da direita diante das mulheres. A fala também teria irritado os filhos de Bolsonaro, pouco habituados a ouvir críticas públicas de quem já orbitou tão perto do núcleo duro do bolsonarismo.
Entre a goiabeira e Brasília: o folclore que resiste
No meio desse "desapodrecimento política, segundo a esquerda, permanece intacto o folclore que ajudou a transformar Damares em personagem nacional. É impossível dissociar a senadora de histórias como a famosa visão em que ela afirma ter visto Jesus subir numa goiabeira, narrativa que virou meme, piada e marca registrada da sua trajetória pública.
Damares continua transitando com naturalidade entre o relatório técnico e o testemunho religioso, entre a defesa de instrumentos de proteção às mulheres e o discurso moralista que a consagrou junto ao eleitorado conservador. A ironia é que, agora, a mesma pastora que denuncia “grandes igrejas” na CPI do INSS agrada ao governo Lula com suas pautas de direitos humanos, enquanto desagrada a Flávio Bolsonaro ao cobrar uma vice mulher na chapa e irrita líderes evangélicos ao expor o lado financeiro da fé.
Talvez seja justamente essa combinação improvável — conservadora que investiga pastores, ex-ministra do bolsonarismo que entrega projetos úteis ao Planalto, e figura religiosa que ganhou o Brasil com a história de Jesus na goiabeira — que explique o curioso, ainda tímido, mas real apreço que parte da pauta da esquerda começa a nutrir por Damares Alves. No fim, entre o INSS, as emendas, o púlpito e a goiabeira, Damares mostra que, na política brasileira, o milagre não é ver Jesus na árvore — é ver uma pastora da direita virar, ainda que parcialmente, protagonista de pautas que a esquerda aplaude em silêncio constrangido.