'A luta por uma simples rampa para subir ao palco é constante'

Cantora Bartira Sene fala sobre os desafios enfrentados por artistas com deficiência

, atualizado

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Bartira Sene é cantora, compositora e idealizadora do Itaporã Trio
Bartira Sene é cantora, compositora e idealizadora do Itaporã Trio - Foto: Mari Rosa
Bartira Sene é cantora, compositora e idealizadora do Itaporã Trio - Foto: Mari Rosa

A acessibilidade não é um desafio apenas para quem consome cultura. Produzir arte, sendo uma pessoa com deficiência, exige devoção.

A cantora e compositora Bartira Sene exerce a sua ao lado Felipe Duarte e Júlia Sarti no Itaporã Trio, grupo com repertório majoritariamente autoral, que aborda sobre capacitismo, celebração e vivências de pessoas com deficiência, pessoas negras, LGBTQIA , mulheres e reverencia a cultura popular afro-brasileira.

Na semana em que a o grupo tem uma apresentação gratuita no Teatro Minaz, Bartira falou com o Jornal Ribeirão sobre o momento atual do projeto.

Bartira, a sua criação musical carrega com muita força as suas vivências enquanto mulher negra e pessoa com deficiência. Como essas experiências interseccionais atravessam e moldam o seu processo de composição no Itaporã Trio?

Essas experiências moldam toda a minha criação! Desde a letra das músicas até a construção melódica e harmônica. Um bom exemplo é a primeira faixa do álbum, Roda dos Ventos, que além dos instrumentos tradicionais, usamos a cadeira de rodas motorizada como parte da instrumentação!

Ser uma mulher negra com deficiência é a única forma que sei ser, então coloco essa identidade e vivência em tudo que crio.

Existem histórias ou sentimentos específicos do seu cotidiano que se transformaram em letra e melodia? Como é transformar essas barreiras do dia a dia em poesia e música?

Sim! Alguns anos atrás escrevia muito a partir de situações vividas principalmente de capacitismo, era minha forma de expressar a raiva, tristeza ou qualquer outro sentimento que vinha. A música "Berimbau que toca só", por exemplo, nasceu de um incômodo pelos olhares de dó que recebia quando subia ao palco e que logo se transformavam em choque, seguido por admiração, assim que começava a cantar. Por isso canto "Se acha que sou dor e dó, vá a outro lugar!".

Mas tenho que dizer que recentemente as músicas não estão nascendo tanto de situações de desconforto, opressão ou violência, mesmo que elas continuem acontecendo. Atualmente crio com mais consciência da mensagem que quero passar e de coisas importantes que sinto necessidade de dizer.

A poesia e música ainda são a minha principal forma de enfrentamento de barreiras, mas atualmente tem sido mais uma forma de celebração da vida!

O cenário musical ainda passa por um processo lento de ocupação por mulheres negras e PcDs no centro do palco. Como você enxerga a importância da sua presença e do seu trabalho para abrir caminhos e inspirar outras pessoas?

Eu me percebo com muita responsabilidade a cada vez que subo no palco. Vieram muitos antes de mim e que reverencio, como Mona Rikumbi, que foi a primeira mulher negra que usava cadeira de rodas a se apresentar no palco do Theatro Municipal de São Paulo e tantos outros! Somos muitos artistas DEF nesse Brasil! E saber que não estou só, me dá ânimo para continuar criando e ocupando os palcos, abrindo portas para quem quiser passar!

Quando pensamos em acessibilidade cultural, muitas vezes se fala apenas da plateia, mas e o palco? Quais são os maiores obstáculos que você enfrenta hoje em termos de estrutura para ensaiar, se apresentar e circular pelos espaços culturais?

O principal obstáculo é com certeza o arquitetônico já que sou uma pessoa com deficiência fisica. A luta por uma simples rampa para subir ao palco é constante. Além da falta de acesso digno à camarim e banheiro. Temos muito a melhorar ainda.

Mas os obstáculos vão para além da falta de acessibilidade arquitetônica. O capacitismo, assim como outras opressões, permeiam todos os cantos e isso muitas vezes se manifesta no não entendimento do modo de existir da pessoa com deficiência. Minha arte nunca vai ser igual à uma pessoa sem deficiência porque não crio a partir dessa lógica que não vivo. Então acredito que falta ainda uma compressão para além das necessidades básicas de acesso sobre as pessoas com deficiência e as nossas formas de existir e criar.

O meio produtivo da música tem demonstrado abertura para adaptar espaços e dinâmicas às necessidades de artistas com deficiência, ou a acessibilidade ainda é tratada como um assunto secundário?

Ja vivenciei as duas coisas. Então, acredito que sim, tem pessoas e lugares que estão mais abertas e entendendo acessibilidade como deve ser, direito básico e garantido. Mas existe sim quem ainda entende como secundário, ou até esqueça de nós. As duas realidades convivem juntas.

Como tem sido o retorno das pessoas ao ouvirem as canções do Itaporã Trio? Que tipo de trocas e depoimentos do público mais te marcam após as apresentações?

Nossa! Tem sido maravilhoso! Mais do que esperava! Várias pessoas elegeram "Berimbau que Toca Só" como sua favorita, dizendo ser uma música que inspira a coragem de ser quem se é. Me emociona muito!

E nos shows, sempre me toca aqueles que saem tocados pela música. E que trazem pra mim as lembranças que teve ouvindo as canções, as sensações. É realmente muito gratificante!

Como é a dinâmica de criação dentro do Itaporã Trio? De que maneira os arranjos e a sonoridade do grupo se somam às mensagens que você traz nas letras?

Tudo começa com a música crua, só voz e piano. A partir daí vamos testando, criando juntos, até chegar no resultado que queremos. E eu acho muito bonito porque vira outra música, fica a cara do Trio, essa sonoridade grande e pequena ao mesmo tempo.

Com o Trio, os significados das palavras e melodias se expandem porque cada um coloca com sua voz e instrumento um pouco do que compreendeu da música, fazendo uma criação única dos três.

O que o público de Ribeirão Preto e região pode esperar das próximas apresentações do Itaporã Trio? Onde as pessoas podem acompanhar e ouvir o trabalho de vocês?

Vamos continuar a circular com nosso show Roda dos Ventos! Inclusive sábado agora tem show no Teatro Minaz, às 20h, entrada gratuita!

Sempre postamos divulgação e outros vídeos no nosso Instagram @itapora.trio e temos nosso álbum autoral, Roda dos Ventos, que está em todas as plataformas digitais!

Serviço

Itapoã Trio no Teatro Minaz

Quando: 31 de outubro (sábado)

Entrada: gratuita (ingressos retirados pelo Sympla)