'Eu sou boa de briga'

Grande vitoriosa na eleição, Duda Hidalgo fala sobre importância de falar para público além da esquerda e não descarta candidatura a prefeita

, atualizado

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Duda Hidalgo, deputada estadual eleita pelo PT
Duda Hidalgo, deputada estadual eleita pelo PT - Foto: Divulgação
Duda Hidalgo, deputada estadual eleita pelo PT - Foto: Divulgação

Eleita deputada estadual pelo PT com 154.953 votos, a advogada Duda Hidalgo chega à Assembleia Legislativa depois de uma trajetória iniciada em Ribeirão, onde foi eleita vereadora em 2020 e reeleita em 2024. A votação, que superou a meta de 80 mil votos estabelecida pela campanha, marca um novo passo para a parlamentar e amplia a presença da esquerda do interior paulista na Alesp.

Duda atribui o resultado ao trabalho coletivo, às visitas a municípios pequenos e médios e à proximidade com os eleitores. "A campanha superou nossa expectativa", afirma. Ela também destaca uma forma de atuação que pretende levar ao mandato: "Não posso prometer que vou resolver todos os problemas, mas posso prometer a luta — e entrego essa luta todos os dias."

A deputada eleita fala ainda sobre renovação política, participação dos jovens e diálogo para além da própria base. Depois de ouvir que a esquerda não teria futuro em Ribeirão, diz que a experiência mostrou ser possível construir uma alternativa na cidade e na região. "Não dá para ficar restrito à nossa base", afirma. Para ela, o desafio agora é transformar a votação em trabalho na Assembleia e ajudar a fortalecer novas lideranças no interior.

Ainda no calor da eleição, concedeu entrevista aos jornalistas Eduardo Schiavoni, Chico Ferreira e José Fernando Chiavenato, durante a cobertura das eleições do Grupo Thathi. Confira os melhores trechos.

JORNAL RIBEIRÃO — O que representa sua eleição e como você recebeu a votação?

Duda Hidalgo — Fico muito feliz porque vejo essa eleição como o início de um processo de renovação da esquerda em São Paulo e de maior presença no interior. Há muito tempo não tínhamos uma votação tão expressiva para uma liderança da nossa região.

A campanha superou nossa expectativa. Nossa meta era chegar a 80 mil votos, e conseguimos ultrapassá-la com folga. Isso mostra a dimensão do trabalho realizado e a confiança das pessoas.

Como foi construída a campanha?

Foi um trabalho coletivo. Agradeço às pessoas que estiveram conosco nas ruas e aos eleitores que confiaram no projeto. Também visitamos municípios pequenos e médios, ouvimos suas demandas e assumimos o compromisso de defendê-los na Assembleia Legislativa.

Eu gosto de fazer campanha e de estar em contato com as pessoas. Essa convivência me permite conhecer o que elas pensam e levar essas questões para o mandato. Fico muito feliz com a votação e com o que ela representa.

Você acredita que conseguiu dialogar com eleitores além da base tradicional do PT?

Acredito que sim. Não se trata de deixar o PT de lado, mas de mostrar que nosso trabalho pode mudar concretamente a vida das pessoas. Construímos uma política próxima, presente nos bairros e na vida cotidiana. Também estivemos presentes nos momentos difíceis, e não apenas durante a eleição, quando se pede voto.

A votação mostra que conseguimos dialogar com outros públicos sem abandonar nossas raízes. Mesmo em uma região considerada majoritariamente de direita, uma candidata de esquerda alcançou uma votação muito expressiva. Isso mostra que é possível fazer política de outra forma.

Como esse trabalho de proximidade aparece no dia a dia?

Quando surge um problema em um bairro, vou até o local, converso com as pessoas e tentamos encontrar juntos um caminho. Não posso prometer que vou resolver todos os problemas, mas posso prometer a luta — e entrego essa luta todos os dias.

O que sua experiência política em Ribeirão Preto e na região ensinou?

Quando me candidatei pela primeira vez, em 2020, muita gente dizia que eu estava perdendo tempo, que a esquerda não conseguiria crescer em Ribeirão e que não teria futuro na cidade. Naquele momento, havia uma tentativa de criminalização do PT e um contexto político muito difícil. Nós resistimos e mostramos que era possível construir uma alternativa de esquerda na cidade.

Esse projeto foi ganhando espaço e se espalhou pela região.No interior, as relações são próximas, e o contato direto ajuda a aproximar as pessoas da política. Não dá para ficar restrito à nossa base. Se conversássemos apenas com a esquerda, não teríamos alcançado essa votação. É possível dialogar com outros públicos, e esse diálogo precisa também ser construído com novas lideranças.

A campanha mostrou que os jovens querem participar da política?

A campanha mostrou que os jovens querem participar e ocupar espaços de verdade. Muitas vezes se diz que a juventude não se interessa por política, mas conseguimos mobilizar pessoas em torno de um projeto e de um futuro diferente.Um dos meus compromissos é ajudar a disputar com força as eleições de 2028 e fortalecer outras candidaturas da região.

Assim como a minha candidatura surpreendeu em Ribeirão Preto, acredito que há outras lideranças que ainda podem surgir.

O PT deve dividir espaço com outros partidos e lideranças da esquerda?

Não só pode, como deve. Sou filiada ao PT e acredito no projeto do partido, que considero uma ferramenta muito importante para a esquerda. Mas, para fortalecer a política, precisamos de diversidade.

É importante que pessoas de outros partidos da esquerda também sejam eleitas.Para termos um campo político mais forte, precisamos de diferentes pessoas e ideias.

Em Ribeirão, por exemplo, o PSOL não conseguiu eleger um vereador na eleição municipal, e isso foi uma perda para a Câmara. Também tenho orgulho de ter como suplente o professor Lages, do PV, e acredito que ele fará um bom mandato caso venha a assumir.

O PT precisará se reorganizar depois da eleição?

Isso é natural. O processo eleitoral também é um processo de organização. A campanha reuniu muita gente e mudou um pouco as perspectivas para o futuro do partido na cidade. O PT tem atraído cada vez mais jovens, pessoas LGBTQIA , negros, negras e trabalhadores que acreditam que é possível transformar Ribeirão.

Sua votação a credencia para uma candidatura à Prefeitura em 2028?

Ainda é cedo para falar disso. Há muita coisa para acontecer, mas nunca se deve dizer nunca.

A votação lhe dá legitimidade para disputar espaço na direção municipal do PT?

Respeito a legitimidade das eleições internas do partido. A direção atual foi eleita pelo voto dos filiados, e cada voto tem o mesmo peso. Se houver disputa interna, ela deve acontecer no próximo processo eleitoral partidário e de acordo com o estatuto do PT.

Na Alesp, você dividirá espaço com Isaac Antunes (PL), seu grande antagonista nos embates na Câmara. Haverá polarização com ele?

Estaremos lá e iremos atuar da mesma forma. Você sabe que eu sou boa de briga (risos).

Qual foi a importância de Zé Dirceu na sua trajetória?

Ele foi muito importante para minha formação política. Foi uma das pessoas que me inspiraram a entrar no PT e quem assinou minha ficha de filiação. Escolhi me filiar ao partido em um evento ligado à biografia dele. Ouvi suas ideias e pensei que era alguém que eu queria acompanhar. Aprendi muito com ele e continuo aprendendo. Sua história política, desde o enfrentamento à ditadura e o movimento estudantil, também faz parte da história do PT.

Como será a atuação no segundo turno presidencial?

Estaremos nas ruas durante o segundo turno, buscando cada voto. Sabemos o que os projetos do governo Lula significaram para muitas pessoas e queremos que essa transformação também apareça nas urnas. Acredito que é possível mudar o cenário.